Negociações com Brasil e caso Bolsonaro frustram Trump, diz assessor da Casa Branca
Kevin Hassett, no entanto, teve dificuldades para justificar tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, ao ser confrontado na TV
O diretor do Conselho Econômico Nacional dos Estados Unidos, Kevin Hassett, defendeu neste domingo, 13, a tarifa de 50% imposta pelo presidente Donald Trump sobre produtos brasileiros, como “parte de uma estratégia geral”; mas teve dificuldades de explicar os motivos específicos ao ser confrontado pelo âncora Jonathan Karl, do programa “This Week”, da emissora de TV americana ABC News.
Hassett declarou que Trump “está muito frustrado com as negociações com o Brasil e também com as ações do Brasil”. Ele também disse achar “que a tarifa sobre o Brasil é maior” que sobre outros países “devido à frustração do presidente com [o caso] Bolsonaro”, mas que, ao mesmo tempo, “não é só isso”.
Assim como na carta de Trump, portanto, as alegações do assessor econômico da Casa Branca misturaram questões comerciais e econômicas envolvendo a relação com o governo Lula, e políticas e judiciais envolvendo o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal.
Questionado a respeito da contradição de impor tarifa sobre um país em relação ao qual os EUA têm superávit comercial e, também, a respeito de como um julgamento doméstico brasileiro pode ameaçar a segurança nacional americana, Hasset apenas enrolou.
Entrevista
O Antagonista traduz e reproduz abaixo o diálogo:
JK: “Bem, como você sabe, muitos economistas preveem inflação e houve certamente muitas exportações que… Quer dizer, importações feitas antecipando a imposição de tarifas. Mas deixe-me perguntar sobre uma nova imposição de tarifa que ele anunciou… sobre o Brasil. Nova tarifa de 50% sobre o Brasil. Com o Brasil, os EUA tiveram um superávit de 6,8 bilhões de dólares no ano passado. Na verdade, os EUA não têm déficit comercial com o Brasil desde 2007. Ou seja, quase duas décadas. Então, por que estamos impondo uma tarifa punitiva de 50% ao Brasil?”
KH: “Bem, o fato é que o presidente está muito frustrado com as negociações com o Brasil e também com as ações do Brasil. No final, estamos tentando colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. Quando falo com negociadores estrangeiros, em algum momento eles perguntam: ‘O que fizemos de errado?’ A mensagem é que os EUA estão se preparando para uma era de ouro, ajustando políticas comerciais e fiscais. Normalmente não é sobre um país específico, mas com o Brasil é. As ações do Brasil chocaram o presidente, e ele deixou isso claro.”
JK: “Mas eu não entendo como você diz que é sobre os EUA, já que o presidente deixou claro que está chateado com a forma como o STF lidou com o caso do ex-presidente Bolsonaro.”
KH: “Bem, eu concordo com você. O que eu digo é que, para a maioria dos países, é sobre acertar as tarifas. Acho que a tarifa sobre o Brasil é maior devido à frustração do presidente com [o caso] Bolsonaro. E o fato de que o próprio Bolsonaro… você sabe, enfim…”
JK: “Mas você pode me explicar, porque acho confuso: que autoridade o presidente tem pra impor tarifas a um país por não gostar como seu sistema judicial lida com um caso específico?”
KH: “Bem, se ele acha que é uma emergência de defesa nacional ou uma ameaça à segurança, ele tem autoridade pela IEEPA [sigla em inglês para Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional].”
JK: “Então, como pode ser uma ameaça à segurança nacional, você sabe, o modo como o Brasil lida com um caso criminal contra seu ex-presidente?”
KH: “Bem, não é só isso. Não é só isso.”
JK: “Mas, então, o que é? Quer dizer, estou perguntando o que é. Parece que é disso que o presidente Trump está falando. Ele fala sobre sua raiva e frustração. Ele tem sido bem franco sobre o caso Bolsonaro.”
KH: “Certo. O ponto é que o que nós estamos fazendo de forma absolutamente coletiva, em relação a todos os países, é buscar transferir a produção aos EUA para reduzir a emergência nacional, ou seja, temos um enorme déficit comercial que nos coloca em risco caso precisemos de produção nos EUA devido a uma crise de segurança nacional. E isso é parte de uma estratégia geral para atingir esse objetivo.”
JK: “Mas, como vimos, temos superávit com o Brasil, não déficit. E temos superávit com o Brasil há 18 anos.”
KH: “Sem estratégia geral, haverá transbordo e não alcançaremos os objetivos.”
Transbordo (em inglês, “transhipment”) é o descarregamento de mercadorias de um navio para outro, ou para outro meio de transporte, para continuar a viagem até o destino final. O governo Trump vem buscando reprimir empresas que enviam produtos fabricados na China através de outros países para evitar altas taxas sobre produtos chineses.
Guerra de narrativas
Nas redes sociais, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) vem tentando fazer os brasileiros ignorarem as alegações dos EUA contra a postura do governo Lula, para focarem somente no ministro Alexandre de Moraes, do STF, como responsável pela tarifa.
A família Bolsonaro explora a medida de Trump, pressionando o Congresso Nacional a aprovar uma anistia ampla, geral e irrestrita, alegando ser o melhor caminho para derrubá-la.
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Comentários (5)
Angelo Sanchez
14.07.2025 17:02O mundo inteiro sabe que o nosso Supremo Tribunal Federal foi nomeado por governos anteriores do atual presidente que foi condenado por corrupção e depois foi "descondenado" pelos próprios Ministros nomeados, afrontando a nossa Democracia e jogando o sistema judiciário brasileiro no esgôto.
Márcio Roberto Jorcovix
14.07.2025 15:32Bolsonaro é um maluco e ditador, Lula é um larápio sem vergonha. O Trump é outro doido que quer empurrar o Brasil de novo pra um destes lados. Chega destes dois. Já deu. Quando o Brasil parece que está acordando vem o Bufão alaranjado encher o saco da gente.
Joaquim Arino Durán
13.07.2025 22:26O bufão alaranjado quer que nossa justiça seja omissa e inoperante nos casos de insurgências e tentativas de golpe, como a deles foi.
Marian
13.07.2025 22:26Uma bomba decisiva. Seguiremos insistindo nos brics, sem Índia, China ? Hã?
FRANCISCO JUNIOR
13.07.2025 20:56Ficou bem claro que as tarifas não tem explicação. Não se pode esperar nada racional vindo de lá.