Gustavo Nogy na Crusoé: Na dúvida, censura
Eu, que separo autor de obra, criador de criatura, arte de apologia, sei que há mais santos escritores que escritores santos. Ainda bem
Durante um tempo considerável, a britânica J.K. Rowling foi a queridinha dos meninos e das meninas, das crianças e dos adultos, dos editores de livros e dos diretores de filmes, dos leitores e dos atores. Com a série de romances protagonizada pelo bruxo mirim Harry Potter, ela aqueceu o coração da audiência e a cotação da bolsa. Até que, depois de chupada a cana, deixaram o bagaço.
E o bagaço, segundo consta, são as opiniões culturais e políticas de Rowling a respeito de homens e mulheres trans. Para ela, não existe essa coisa de separar gênero de sexo, sexo de gênero, e todas as nuances quase metafísicas desse debate que tem movimentado os departamentos de humanidades, as redações dos jornais, os stories do Instagram, os conclaves papais e também o mercado livreiro.
Uma das livrarias mais populares de São Francisco, EUA, a The Booksmith, retirou todos os livros da saga Harry Potter de seu catálogo, em retaliação às opiniões – assim me garantem – transfóbicas de sua autora. Os donos da loja recomendam que os interessados nas histórias comprem exemplares usados nos sebos, mas que não continuem a encher os bolsos da escritora – já que, a essa altura, os bolsos dos editores e livreiros já se encheram com as vendas.
Eu não tenho opiniões sobre as opiniões de J.K. Rowling, nem tenho opiniões a respeito dos problemas da comunidade trans, ou a respeito dos problemas de se ter opiniões contrárias às da comunidade trans. Eles que são trans que se entendam ou se desentendam. Mas tenho memória.
E, assim de memória, sem muito esforço, me lembro que, vejamos, Ezra Pound, Jean Genet, Henry Miller, Jean-Jacques Rousseau, Marquês de Sade, Arthur Rimbaud, Jorge Amado, Louis-Ferdinand Céline, Jean-Paul Sartre, Monteiro Lobato, Martin Heidegger, Bertold Brecht, Henry Louis Mencken, Michel Foucault – e tantos outros escritores, artistas, cineastas, filósofos e cientistas, brasileiros e estrangeiros, terráqueos e alienígenas, têm algo em comum: nalgum momento cometeram, defenderam, justificaram…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)