As consequências geopolíticas da sucessão do Dalai Lama

23.10.2026

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As consequências geopolíticas da sucessão do Dalai Lama
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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 11.07.2025 17:49 comentários
Cultura

As consequências geopolíticas da sucessão do Dalai Lama

Além do que representa do ponto de vista espiritual para os budistas, a sucessão interessa aos comunistas da China

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 11.07.2025 17:49
As consequências geopolíticas da sucessão do Dalai Lama
Dalai Lama, líder espiritual tibetano

À medida que o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, se aproxima dos 90 anos, sua sucessão se transforma em um evento não apenas espiritual, mas geopolítico.

O líder espiritual tibetano confirmou que a antiga tradição budista prevalecerá na escolha de seu sucessor, refutando rumores sobre o fim da instituição. O processo deve reacender uma disputa que vai além das fronteiras religiosas.

O rito milenar e a reencarnação

Diferente de outras hierarquias religiosas, a liderança espiritual tibetana não é determinada por hereditariedade ou votação popular. O Dalai Lama é reverenciado como a manifestação terrena do Bodhisattva da Compaixão, uma entidade divina que periodicamente retorna ao mundo para aliviar o sofrimento humano. O complicado ritual para identificar seu sucessor, que é sempre um menino, inicia-se após o falecimento do líder atual.

Os altos lamas do budismo entram em um período de luto e meditação, buscando sinais sobre o local da nova reencarnação. Uma prática importante consiste na consulta ao lago sagrado Lhamo Latso, sul do Tibete, onde monges de alto escalão observam a superfície em busca de visões reveladoras. No caso do atual Dalai Lama, Lhamo Thondup, visões de letras tibetanas e detalhes de um monastério guiaram a busca até sua aldeia natal.

Após localizar uma região provável, monges peregrinam por vilas e cidades, procurando crianças nascidas pouco depois do falecimento do predecessor. Eles se mantêm atentos a ocorrências extraordinárias, sonhos premonitórios ou comportamentos incomuns. Os candidatos em potencial são então submetidos a testes rigorosos, como o reconhecimento de pertences do Dalai Lama anterior entre objetos semelhantes.

Apenas se o menino superar essas provas e os sinais místicos convergirem, ele é reconhecido como a reencarnação do antigo líder. Uma vez identificado, o jovem é conduzido a um monastério para anos de formação espiritual e filosófica, culminando na cerimônia de entronização no histórico templo de Potala, em Lhasa, e na ordenação como monge noviço no templo Jokhang.

O desafio geopolítico: Pequim vs. Dharamsala

Desta vez, mais do que espiritual, a sucessão do Dalai Lama é o epicentro geopolítico de um atrito entre a hierarquia budista tibetana e a República Popular da China, que ocupou o Tibete em 1950. Desde o exílio do 14º Dalai Lama na Índia, em 1959, Pequim o rotula de “separatista” e impôs a proibição de sua imagem no Tibete.

A China sustenta que o governo central deve aprovar a seleção do futuro Dalai Lama, reivindicando um método introduzido pela dinastia Qing no século XVIII, que envolve a retirada de um nome de uma urna dourada. Já o Dalai Lama expressou em seu livro A Voz de Uma Nação (2025) que sua reencarnação não emergirá em território sob controle chinês, mas sim “no mundo livre”, com a identificação a cargo da Fundação Gaden Phodrang, criada por ele em 2011.

A interferência chinesa é observada com ceticismo pela maioria dos budistas tibetanos, especialmente após o incidente do Panchen Lama em 1995. Naquela ocasião, o Dalai Lama reconheceu um menino de seis anos como a reencarnação do segundo líder mais importante do budismo tibetano. Dias depois, a criança e sua família foram detidas pelas autoridades chinesas e nunca mais foram vistas. Em seu lugar, Pequim impôs seu próprio Panchen Lama, considerado ilegítimo pela comunidade budista.

Este precedente levanta a perspectiva de dois Dalai Lamas surgindo simultaneamente após a morte do líder atual: um reconhecido pela Fundação Gaden Phodrang e outro imposto por Pequim. O próprio Dalai Lama previu este cenário em 2019, afirmando que “ninguém respeitará o segundo”.

A Índia, que acolhe mais de 100 mil tibetanos exilados, atribui alto valor estratégico à presença do Dalai Lama em Dharamsala, e provavelmente se oporia a um líder imposto pela China. Os Estados Unidos também demonstraram interesse, aprovando a Lei de Política e Apoio ao Tibete em 2020, que explicitamente ampara o direito do Dalai Lama de determinar sua sucessão e estabelece sanções contra funcionários chineses que tentem intervir no processo.

A próxima sucessão pode se tornar um evento de profundo impacto na religião, na identidade cultural e na intrincada trama política global. Sairá fumaça, mas não será branca

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