“Atire no pé dos manifestantes”: protestos no Quênia sob forte repressão
Jovens manifestantes estão sendo mortos quase semanalmente em uma das maiores economias da África
Nos últimos dias, o Quênia tem sido palco de intensas manifestações, onde milhares de cidadãos se mobilizam contra o governo do presidente William Ruto.
Em um discurso recente, proferido em uma igreja, Ruto identificou um “espírito maligno” como responsável pela violência e desordem que afligem o país, convocando os presentes a rezarem para derrotar essa força invisível que, segundo ele, ameaça a nação.
Embora muitos quenianos compartilhem da preocupação do presidente quanto a esse “espírito maligno”, para uma parte significativa da população, este se personifica no próprio William Ruto.
A insatisfação popular tem se intensificado desde que Ruto assumiu a presidência em setembro de 2022.
Jovens e grupos diversos têm protestado contra problemas sistêmicos como corrupção, má gestão pública, violência policial, desemprego e o aumento exorbitante dos custos de vida.
Até agora, mais de cem vidas foram perdidas em decorrência dos conflitos entre manifestantes e forças de segurança.
No último dia 25 de junho de 2024, um marco de protestos históricos no país, a polícia foi responsável pela morte de ao menos 31 pessoas durante as manifestações que ocorreram em várias regiões.
Este dia coincidiu com o aniversário de grandes mobilizações ocorridas em 1990, quando a população exigia o fim do regime autoritário do ex-presidente Daniel arap Moi.
Fim do sonho queniano
Um estudo recente revelou que apenas 14% dos entrevistados acreditam que o Quênia está caminhando na direção certa, refletindo um sentimento generalizado de estagnação e retrocesso desde 1990.
A gestão de Ruto começou com promessas ambiciosas. Ele se apresentou como um líder do povo trabalhador — os “hustlers” — e prometeu romper com as práticas corruptas das elites que dominam a política queniana desde a independência.
O presidente utilizou sua própria trajetória pessoal como exemplo: de vendedor ambulante a empresário bem-sucedido e político influente, apresentando-se como um símbolo do sonho queniano.
Entretanto, após três anos à frente do governo, muitos quenianos enxergam sua presidência como um pesadelo.
As promessas de redução nos custos de vida foram abandonadas e novas taxas foram impostas sobre itens essenciais, como pão e óleo de cozinha, impactando severamente os cidadãos de baixa renda.
Acusações também surgiram sobre um aumento na corrupção dentro do governo. Em 2024, empresas americanas expressaram dificuldades em operar no Quênia devido à exigência de subornos por parte de membros do governo durante processos licitatórios.
Repressão policial contra manifestantes
O clima de insatisfação levou à intensificação dos protestos. No auge das manifestações em junho, manifestantes invadiram o parlamento em Nairobi. A resposta da polícia foi brutal e resultou na morte de mais de vinte pessoas.
O tom do presidente mudou drasticamente; anteriormente compreensivo em relação às frustrações da juventude, agora ele acusa os manifestantes de quererem levar o país à anarquia.
Em uma declaração recente à polícia, orientou que eles atirassem nos pés dos manifestantes visando desestabilizá-los ainda mais.
Nos últimos anos, diversas denúncias apontam que ativistas foram sequestrados e até torturados por forças policiais e serviços secretos.
A liberdade da imprensa também tem sido ameaçada, com jornalistas sendo alvos de intimidações durante suas coberturas sobre os protestos.
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