Bebê reborn? Vem aí o DNA humano artificial
Cientistas prometem uma revolução nos tratamentos de saúde, com a possibilidade de se “escrever” o código genético humano inteiro
Uma iniciativa científica, digamos, um pouco controversa teve início com o objetivo de fabricar os tijolinhos da vida humana do absoluto zero. Polêmico, o projeto recebeu um investimento inicial de £10 milhões (aproximadamente R$ 75,5 milhões) da Wellcome Trust, a maior instituição beneficente de saúde do mundo.
Embora a pesquisa prometa revolucionar o tratamento de inúmeras enfermidades incuráveis e impulsionar o envelhecimento saudável, ela também reacende debates éticos pra lá de cabeludos (aliás, não existe tratamento genético eficaz para calvície?), gerando apreensões sobre a possibilidade de criar bebês geneticamente modificados (alguém já ouviu falar disso?…) ou o uso indevido da tecnologia.
Ninguém segura os cientistas
Denominado Projeto Genoma Humano Sintético, a nova frente de investigação se distingue fundamentalmente do Projeto Genoma Humano, que consistia em decifrar a sequência das moléculas de DNA. Enquanto o antecessor “leu” o código genético, a ambição agora é “escrever” e construir segmentos de DNA – e futuramente, por que não?, até cromossomos inteiros, a partir de suas unidades básicas.
Julian Sale, do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica (MRC) no Reino Unido, descreve esta pesquisa como o próximo grande avanço biológico, com potencial ilimitado para desenvolver terapias que aprimorem a vida e gerem células resistentes a doenças, capazes de regenerar órgãos danificados como o fígado, o coração e o sistema imunológico. As promessas de sempre; os riscos, idem.
Para o diretor do Wellcome Sanger Institute, Matthew Hurles, a possibilidade de construir DNA do zero permitirá aos cientistas uma inédita flexibilidade para testar o funcionamento do DNA e validar novas hipóteses, superando as limitações dos ajustes em sistemas biológicos preexistentes. A meta inicial é a síntese de um cromossomo humano, que será estudado para compreender como os genes regulam o corpo, levando a tratamentos mais eficazes para doenças genéticas. É fundamental esclarecer que a pesquisa se limita a ambientes controlados, como tubos de ensaio e placas de Petri, sem intenção de criar vida sintética. Por enquanto.
Aquelas questões éticas…
Apesar do potencial terapêutico, a natureza do projeto suscita preocupações significativas. Pat Thomas, diretora do grupo Beyond GM, alerta para o risco de a ciência ser deturpada para fins prejudiciais ou militares. Ela teme que a pesquisa abra precedente para indivíduos inescrupulosos buscarem criar seres humanos geneticamente aprimorados.
De acordo com Bill Earnshaw, cientista genético da Universidade de Edimburgo, uma vez desenvolvida, será difícil de controlar a tecnologia, com o “gênio” zanzando por aí “fora da lâmpada”, abrindo caminho para a criação de armas biológicas ou organismos com DNA humano. Thomas também levanta questões sobre a propriedade e os dados de possíveis “partes sintéticas do corpo ou até mesmo pessoas sintéticas”.
A Wellcome Trust, como não poderia deixar de ser, defende seu financiamento como uma medida proativa para o desenvolvimento responsável. Tom Collins, que aprovou a verba, explicou que a decisão considerou o “custo da inação”, reconhecendo que a tecnologia será desenvolvida eventualmente. Ao participar agora, a instituição busca garantir que o processo ocorra da forma mais ética e transparente possível.
Para isso, um programa paralelo de ciências sociais, liderado pela socióloga Joy Zhang, da Universidade de Kent, envolverá especialistas e o público (sei…) para discutir os benefícios e, principalmente, as inquietações em relação a essa tecnologia inovadora.
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Comentários (1)
Renata De Paula Xavier Moro
09.07.2025 18:57“Admirável Mundo Novo”, escrito em 1932!