Gustavo Nogy na Crusoé: As urgências da memória
Do fundo da memória, ouço os gritos da minha mãe. Tenho saudade dela, daquela urgência, daquelas louças
Sou o mais novo entre cinco irmãos. Para ser exato: sou o mais novo e, além de mim, há quatro irmãs. Nessa constatação há dois senões. Primeiro: a essa altura, ser o mais “novo” é eufemismo para ser o menos velho. Segundo: a soma de quatro irmãs e um irmão não resulta em cinco irmãos, mas em quatro irmãs e um estrangeiro que veio desestabilizar o império.
Entre nós, nunca houve hierarquia para os serviços domésticos. Em vão eu sonhava com machismos e opressões de toda ordem, suspirava por milenares patriarcados, resmungava impropérios de Átila amador, mas o que me sobrava mesmo, a depender dos humores do matriarcado, eram os pratos, as panelas, os talheres e a resignação.
Seja como for, acostumamo-nos à rotina. Ajudar em casa, desde pequenos, era tão natural quanto sujar a casa. Mas havia uma circunstância em que eu cogitava revoltas cruentas contra tal regime opressor: quando a urgência higienista desafiava meu fanatismo. Explico.
Comíamos, e eu corria à tevê para assistir ao futebol. Para assistir à reprise dos gols dos jogos ocorridos ontem ou anteontem, em uma época em que éramos escravos da programação regular. Prioridades, prioridades. Pois era chegar à sala e ouvir o comando: “– Gustavo, a louça!”
E eu pedia que esperasse. Eu implorava que esperasse. Eu ameaçava que esperasse. Como um improvisado Sócrates, argumentava que louças não têm pernas nem asas e continuariam ali, quietinhas, esperando o banho diário.
Mas não havia meio, nem argumento, nem sedução. A louça precisava ser lavada e precisava ser lavada agora. Depois seria tarde. Depois as visitas (que nunca chegaram) chegariam. Depois a sujeira ficaria ressecada. Depois é depois.
Então, eu deixava os gols para o programa das 18h e corria a cumprir a obrigação – sem compreender, sem aceitar, sem…
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