Por que líderes radicais atraem tanta gente?
Eleitores e entusiastas, de direita ou de esquerda, tendem a perceber o extremismo como sinônimo de firmeza de propósito
Líderes políticos que propõem rupturas e mudanças estruturais ou revolucionárias, como os que prometem romper com o “sistema”, tendem a gerar uma devoção mais intensa em seus seguidores. Essa lealdade, conforme aponta um dos mais recentes estudos em psicologia social a respeito do tema, não se baseia apenas na atração por ideias ou propostas extremistas, mas corresponde a um profundo benefício psicológico: a sensação de que as ações individuais e o próprio engajamento importam.
A pesquisa de 2024, intitulada “Motivational underpinnings of support for radical political leaders”, defende que a percepção de uma figura política como radical tende a redimensionar a importância dos objetivos do líder para o eleitor, proporcionando um sentido considerado pessoal e, consequentemente, reforçando a disposição para o ativismo e os sacrifícios. Noutras palavras: quanto menos moderado o político é, mais atenção ele recebe e mais engajamento ele suscita. Alguém ficou surpreso?
Não adianta negar: em política, as pessoas levam pro lado pessoal
A investigação, cujos resultados foram publicados no European Journal of Social Psychology, teve como intuito compreender a razão pela qual indivíduos são atraídos por líderes que defendem transformações de grande escala, mesmo quando suas propostas podem parecer arriscadas ou de difícil concretização.
De autoria de Joanna Grzymala-Moszczynska, Marta Maj, Marta Szastok, Arie Kruglanski e Katarzyna Jasko, o trabalho aponta que a necessidade humana de sentir-se relevante e importante – um conceito amplamente reconhecido na psicologia como a “busca por significado pessoal” – é um motor fundamental nesse processo.
Os pesquisadores sugerem que líderes (e não importa o vetor ideológico) com uma retórica mais incisiva e ambiciosa conseguem mexer com essa necessidade, defendendo sua causa de maneira mais urgente e transformadora. Mais do que o conteúdo do que se defende, é a forma que seduz as pessoas. Em contraste, figuras políticas com abordagens mais ponderadas e gradualistas podem não oferecer a mesma gratificação emocional, limitando a profundidade do engajamento de seus apoiadores.
Para testar essa hipótese, os pesquisadores conduziram cinco investigações distintas, envolvendo mais de 2.100 participantes. Três dessas análises foram realizadas nos Estados Unidos durante diferentes etapas das eleições presidenciais de 2016, uma se concentrou nas primárias democratas de 2020 e a última ocorreu durante as eleições parlamentares polonesas de 2023.
Em todos os cenários, a equipe examinou como a percepção de um líder como radical impactava a relevância de seus propósitos para os votantes, intensificava sentimentos de importância pessoal e aumentava a propensão para a ação ou o autossacrifício.
Resultados abrangentes e as nuances da lealdade
Os achados demonstraram um padrão consistente: quanto mais radical um candidato era visto, maior era a importância atribuída aos seus objetivos pelos simpatizantes. Isso, por sua vez, gerava uma impressão do tipo personalístico da política (tal candidato “me representa” como nenhum outro) e a uma maior propensão ao engajamento, incluindo a disposição para fazer sacrifícios pessoais em prol da causa. O 8 de janeiro, no Brasil, ilustra bem essa tese.
De acordo com os pesquisadores, mesmo após reveses políticos, como a saída de um candidato da corrida eleitoral (ou sua inelegibilidade?), a devoção dos apoiadores persistia, especialmente quando as ideias defendidas eram percebidas em nível individual, subjetivo. A esfera pública nunca é vista como pública, afinal de contas.
Um estudo em particular, realizado na Polônia, empregou um design experimental, manipulando a percepção de radicalismo de um partido político. Os participantes que leram que seu partido preferido apoiava reformas ousadas e revolucionárias reportaram maior importância dos objetivos, mais significado pessoal e maior intenção de ativismo, em comparação com aqueles que leram que o partido favorecia mudanças graduais.
Curiosamente, um número considerável de participantes na condição “moderada” distorceu a informação lida, afirmando que seu partido havia sido descrito como radical. Isso sugere que as pessoas podem resistir a classificar seu próprio partido como moderado se isso diminuir o investimento emocional na causa.
No entanto, a pesquisa também revelou nuances importantes. O efeito do radicalismo percebido pode variar conforme as inclinações políticas do eleitor. Para eleitores com visões mais radicais, a percepção de qualquer candidato como radical amplificou o apoio, independentemente da radicalidade objetiva do candidato. Entre eleitores mais moderados, esse efeito foi menos pronunciado e só se manteve para candidatos de perfil também moderado.
Embora os estudos ofereçam insights, os pesquisadores ressaltam que a maioria das abordagens foi correlacional, o que impede a conclusão definitiva de que a percepção de radicalismo seja a única causa do engajamento. A possibilidade de que indivíduos já profundamente engajados em uma causa tendam a percebê-la como radical também é considerada. Pesquisas futuras são necessárias para verificar se esses mesmos dinâmicos psicológicos se aplicam em outros contextos culturais e sistemas políticos.
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