O estranho caso que intriga psicólogos e neurologistas
Um homem teve o crânio atravessado por uma barra de ferro, sobreviveu e até hoje intriga pesquisadores
Uma das figuras mais impressionantes da história da neurociência e da psicologia é Phineas Gage, cujo crânio foi atravessado por uma barra de ferro em 1848, e teve sua personalidade alterada a partir de então. Embora não tenha sido um teórico, mas a vítima de um incidente, ele é o principal exemplo para explicar a relação entre a desinibição social e o impacto de lesões no lobo frontal.
Mas há quem defenda que essa narrativa é, em grande parte, uma construção ficcional que obscurece a realidade das experiências de sobreviventes de lesões cerebrais. Por exemplo, o escritor e artista Ben Platts-Mills, que trabalhou por quase duas décadas com essa população. A perpetuação de tais “mitos”, como aponta Platts-Mills, pode estigmatizar pacientes e dificultar a reabilitação.
A construção de um paradigma
A história de Gage ganhou notoriedade científica em 1878, popularizada pelo neurologista escocês David Ferrier.
Consta (ou conta-se) que Phineas Gage era um jovem operário americano comum, de temperamento amigável e de personalidade generosa. Em 1848, uma explosão acidental durante a construção de trilhos onde trabalhava fez com que uma barra de ferro de um metro atravessasse seu crânio, na região do lobo central, de forma bizarra. Mas ele não morreu.
Phineas se recuperou clinicamente e foi para casa. Mas algo tinha mudado. Na verdade, tudo tinha mudado. Sua personalidade era outra. De amigável e moderado, se transformou em um homem agressivo e vicioso.
John Harlow, o médico que tratou Gage, associou a lesão do lobo frontal à perda de controle sobre as “paixões animais”, elaborando a base para conceitos como “função executiva” e “desinibição”. Desde então, Gage tem sido tratado na literatura neurocientífica como um “exemplo da disfunção comportamental”, em virtude dos relatos de que ele se tornou um homem irresponsável, propenso a vícios e sem confiabilidade.
Antonio Damasio, em seu livro O Erro de Descartes, chegou a retratá-lo como uma “atração de circo” que “negociava miséria por ouro”. Essas descrições se tornaram tão enraizadas que, ao pesquisar sobre lesões do lobo frontal, a história de Gage aparece em quase todas as páginas, frequentemente acompanhada pela imagem de seu crânio perfurado.
Os fatos e os “fatos alternativos”
Apesar da onipresença da história de Gage nos livros de curiosidades e nos compêndios de neurociência, sua precisão factual é questionável. Ben Platts-Mills destaca que há pouquíssimas fontes primárias sobre Gage, todas escritas por médicos que o conheceram após o acidente, sendo que apenas Harlow menciona uma mudança de personalidade, em pouco mais de 300 palavras, e sem citar o próprio Gage.
O psicólogo e historiador Malcolm Macmillan, em 2008, concluiu que a maioria dos escritores posteriores não checou as fontes originais, promovendo embelezamentos e ignorando aspectos importantes. Declarações populares, como as de Gage se envolvendo em jogos e prostituição, ou atuando como “atração de circo”, não encontram respaldo nas fontes primárias.
De fato, a evidência disponível contradiz as alegações de declínio. Longe de ser um homem sem capacidade, Gage trabalhou em um estábulo por 18 meses após sua recuperação e, depois, por quase oito anos em Valparaíso, Chile, como cocheiro de uma diligência, uma função que exigia grande responsabilidade, destreza, atenção sustentada e autodomínio. Segundo Macmillan, Gage precisou aprender a língua e os costumes locais e lidar com agitações políticas, desafiando a ideia de suas capacidades reduzidas.
Contrastes reveladores: Muybridge e a complexidade humana
Para ilustrar a seletividade e as falhas na narrativa de desinibição, Ben Platts-Mills compara Gage com outro contemporâneo que sofreu uma lesão cerebral: o fotógrafo Eadweard Muybridge. Muybridge, também vítima de um acidente grave, apresentou mudanças comportamentais notáveis e, anos depois, cometeu um assassinato, atirando em um crítico de teatro que supostamente se envolveu com sua esposa.
Apesar de o histórico de Muybridge ser muito mais documentado e incluir um ato de violência inquestionável, ele raramente é citado na literatura sobre desinibição, ao contrário de Gage. A riqueza do registro histórico de Muybridge, incluindo seu julgamento por assassinato e as complexas motivações para seu crime, impede uma interpretação simplista de seus atos como mera “desinibição”. Seu status como artista e o apoio de figuras influentes também o protegeram de interpretações reducionistas que afligiram Gage.
Repensando a desinibição e o cuidado com o paciente
Ben Platts-Mills defende que o conceito de “desinibição social” é controverso e impreciso, porque depende de interpretações variáveis sobre o que seria seu oposto, um “comportamento apropriado”. E isso é uma construção social e não individual.
A experiência de Callum ilustra essa complexidade. Callum descreveu comportamentos atípicos após sua lesão – como sugerir fumar maconha na frente da família ou sair do hospital contra as ordens médicas –, mas insistiu que esses atos ainda pertenciam à sua identidade e tinham um propósito, como reafirmar sua capacidade e persistência.
Isso contrasta com a visão da desinibição como um sintoma a ser suprimido, alinhando-se com a perspectiva do neurologista Kurt Goldstein de que o comportamento do indivíduo ferido busca a autorrealização.
Em vez de perpetuar mitos simplistas, as ciências cerebrais deveriam desenvolver descrições que reflitam a experiência humana real, ajudando os pacientes a se compreenderem e a lidarem com suas condições. Como conclui Ben Platts-Mills, o verdadeiro assombro a respeito de Gage não é a disfunção, mas a notável capacidade de sobrevivência e recuperação funcional após um dano cerebral traumático severo, demonstrando resiliência e a busca por dignidade em circunstâncias catastróficas.
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