“Como os yuppies se tornaram socialistas”
River Page, jornalista americano, investiga como o medo de cair da classe média empurrou jovens profissionais urbanos para o socialismo identitário
O jornalista americano River Page publicou no portal The Free Press, artigo intitulado “Como os yuppies se tornaram socialistas”, uma análise sobre a radicalização da chamada “classe gerencial” urbana e sua guinada rumo ao socialismo identitário representado por figuras como Zohran Mamdani, deputado estadual em Nova York.
O ponto de partida é a noite da escolha de Mamdani nas primárias democratas, celebrada com entusiasmo em um bar sofisticado em Manhattan.
Lá, o autor encontra “jovens bem-vestidos, com AirPods e diplomas universitários”, que fazem parte do que chama de “classe mais privilegiada que o capitalismo já produziu”.
Eles apoiam Mamdani, embora este tenha perdido entre os mais pobres e mais ricos e vencido apenas entre quem ganha entre 75 e 150 mil dólares por ano.
Page recupera o diagnóstico de Barbara Ehrenreich, autora de Fear of Falling (1989), para quem “se esta é uma elite, é uma elite profundamente insegura”.
Segundo ela, essa classe abandonou o idealismo nos anos 70 ao se desencantar com a criminalidade nas comunidades negras e com o conservadorismo dos operários brancos. “Eles se retiraram para suas carreiras e vidas privadas, certos de que os ‘sem nada’ não valiam o esforço”.
A guinada ao individualismo nos anos Reagan se transforma, décadas depois, numa adesão a causas sociais progressistas, impulsionada por “uma competição dentro de universidades, ONGs e redações”.
Para Page, “a história do esquerdismo americano desde Bernie Sanders é a história da revolta da classe média metropolitana”, especialmente em cidades onde seis dígitos de salário não compram mais casa ou boas escolas públicas.
O novo fenômeno, diz ele, não é exclusividade de Nova York.
“Há professores universitários e advogados em Des Moines, Iowa. A diferença é que lá eles podem comprar uma casa. Em San Francisco ou Nova York, não.” Esse descompasso entre formação e qualidade de vida teria levado o grupo à radicalização.
A ironia, para o autor, é que “muitos dos que a base de Trump culpa pela decadência econômica também se sentem deixados para trás pelo próprio mundo que construíram”. E mesmo quando têm os “bons empregos”, vivem sob o risco constante de perder tudo.
“Se a Grande Recessão [de 2008], a Covid-19 e a ameaça de demissões via inteligência artificial ensinaram algo à classe profissional, é que seus diplomas não os salvarão.”
A única corrente que ainda defende o modelo econômico anterior seria a dos defensores da “abundância”, uma fração tecnocrática dentro do Partido Democrata que acredita que “o verdadeiro neoliberalismo nunca foi tentado”.
Page descreve essa ala como a última resistência diante do esvaziamento do centro político.
O artigo termina com a frase que resume o espírito da nova militância socialista da classe média das grandes metrópoles americanas: “Eu não aceitarei uma vida que não acho que mereço.”
Para Page, esse é o verdadeiro mantra da nova esquerda dos yuppies precarizados.
Quem é River Page
River Page é jornalista norte-americano especializado em análise política, colaborador do The Free Press.
Ele também é conhecido por artigos publicados no Compact Magazine e por seu estilo narrativo crítico, com foco nas transformações ideológicas da classe média.
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