A democratização criativa na visão de Rick Rubin
Uso de IA tem sido dos temas mais debatidos na indústria da música, dividindo opiniões entre aqueles que a veem como ferramenta ou ameaça
Rick Rubin, o gênio da música que não sabe tocar uma nota ou operar uma mesa de som (palavras do próprio), é um dos mais importantes e requisitados produtores do mundo. É uma grife. Trabalhou e produziu discos de artistas tão diversos como Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys e Johnny Cash. Advogando (quase) em causa própria, ele declarou que defende abertamente o uso da inteligência artificial na arte.
Segundo Rubin, a IA representa a “democratização” da tecnologia, um fenômeno cultural e tecnológico comparável à ascensão do punk rock em meados dos anos 70. Ele explica que, assim como o punk permitiu que qualquer pessoa com “três acordes” criasse música sem a necessidade de anos de estudo formal em conservatórios, a IA remove barreiras técnicas, tornando a produção artística mais acessível.
A ideia é que a (falta de) habilidade para fazer arte – tocar um instrumento, pintar um quadro, modelar uma escultura – não deveria impedir que qualquer pessoa fizesse arte. Aqui, Rubin separa a destreza da criatividade. Muitas pessoas sem instrução artística poderiam ter visões e concepções artísticas relevantes, que não se realizam por falta de treino ou educação técnica.
Rubin destaca o conceito de “vibe coding”, um recurso em softwares de IA onde o usuário atua como diretor de arte e a IA como programador, acelerando significativamente os processos criativos. Essa facilidade de acesso, conforme sua visão, poderá empoderar artistas a lançarem seus trabalhos de forma independente, sem a dependência de grandes gravadoras.
A propósito, em entrevista ao 60 Minutes, da tevê americana CBS, Rick Rubin disse: “Não, eu não tenho habilidade técnica, e não sei nada sobre música. Eu sei o que eu gosto e o que eu não gosto. E eu sou decisivo sobre o que eu gosto e o que eu não gosto… A confiança que tenho no meu gosto e na minha capacidade de expressar o que sinto provou ser útil para os artistas”. Em suma, ele não sabe tocar, mas sabe ouvir como ninguém.
Outro entusiasta da tecnologia é Björn Ulvaeus, integrante do Abba, que tem usado recursos de IA na composição de um musical. Ulvaeus descreve a IA como uma “ferramenta fantástica”, semelhante a ter “outro compositor na sala” com um vasto repertório de referências, funcionando como uma extensão da mente que abre caminhos para novas ideias. Mesmo reconhecendo que nem todos os resultados são ideais, ele afirma que a ferramenta permite explorar direções inesperadas, gerando inspiração para o processo criativo.
Nem todo mundo compra essa ideia
Contrariando a visão de Rubin e Ulvaeus, uma parcela significativa da comunidade artística expressa preocupação com o avanço da inteligência artificial. Recentemente, mais de 400 artistas britânicos assinaram uma carta endereçada ao primeiro-ministro Keir Starmer, solicitando uma atualização das leis de direitos autorais no Reino Unido para se adequarem às novas tecnologias.
Nomes de peso como Elton John, Dua Lipa, Coldplay, Paul McCartney, Kate Bush e Robbie Williams estão entre os signatários, que alertam para os riscos que a IA representa aos artistas. Na perspectiva desses músicos e criadores, a tecnologia tem o potencial de fragilizar a indústria da música e do cinema, além de impactar negativamente a remuneração de diversas categorias ligadas à arte.
O apelo coletivo sublinha a necessidade de proteger a propriedade intelectual e garantir que os criadores sejam justamente compensados em um cenário onde a IA pode replicar ou gerar conteúdo baseado em obras existentes. A discussão, portanto, permanece acesa, evidenciando um divisor de águas na indústria cultural, onde a inovação tecnológica se choca com questões fundamentais de autoria e subsistência artística.
Em tempo: o livro O ato criativo: Uma forma de ser, de Rock Rubin, foi publicado no Brasil pela editora Sextante. Vale muito a leitura e, provavelmente, valerá uma resenha em breve.
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