A ascensão do neonazismo entre os jovens russos
Enquanto Putin acusa Ucrânia de promover o fascismo, em seu próprio quintal os neonazistas encontram abrigo
A Rússia testemunha um preocupante ressurgimento da violência de direita radical, perpetrada majoritariamente por jovens, uma tendência que contradiz abertamente a narrativa do Kremlin sobre a suposta necessidade de “desnazificação” da Ucrânia.
Dados recentes do Sova Centre, uma entidade moscovita que monitora crimes de ódio, indicam que os incidentes de extremismo ultranacionalista sob a ditadura de Vladimir Putin mais que duplicaram em 2023, comparado ao ano anterior, revertendo uma década de declínio. Muitos dos agressores são menores de 16 anos.
O retorno do neonazismo e suas plataformas
Este cenário remete à era caótica pós-colapso da União Soviética, nas décadas de 1990 e 2000, um período de centenas de ataques anuais impulsionados pela proliferação de literatura extremista clandestina. Contudo, a onda atual, embora ainda não tenha atingido a brutalidade letal daquela época, floresce em plataformas digitais como Telegram e TikTok. É nesses espaços que muitos jovens russos se conectam e propagam ideologias radicais, frequentemente fora do alcance das autoridades.
Em Kostroma, por exemplo, um grupo de adolescentes autodenominado “Made With Hate” utilizava um canal de mensagens para organizar encontros, que rapidamente evoluíram para atos de vandalismo, como pichações de suásticas, e, subsequentemente, para agressões físicas. Segundo um ex-integrante, os alvos incluíam dependentes químicos, alcoólatras e ativistas de esquerda, com os ataques frequentemente filmados e publicados online.
Em novembro de 2024, um jovem de 17 anos, identificado como Yaroslav, foi atacado por nove indivíduos após assistir a um documentário sobre um antifascista, resultando na perda de um olho devido a um disparo de pistola sinalizadora. Dois adolescentes foram detidos em conexão com o incidente. A pesquisadora Vera Alperovitch, do Sova Centre, aponta que esses novos grupos buscam revitalizar as “tradições e todas as formas de violência desenvolvidas nos anos 2000”, incluindo agressões coordenadas em transportes públicos, conhecidas como “white wagons”.
Motivações e o silêncio do Kremlin
Ao contrário dos extremistas ideologicamente articulados das décadas passadas, a motivação contemporânea parece estar mais ligada à busca por “hype” e reconhecimento social. Amalia Zatari, da BBC News Russian, destaca que esses não são “combatentes ideológicos” no sentido tradicional; para eles, questões políticas complexas são secundárias à simples ideia de agredir migrantes e registrar os atos em vídeo. A retórica xenofóbica das autoridades e da mídia estatal russa, somada a um viés militarista crescente na sociedade, é vista como um fator central para o aumento dos ataques.
Especialistas como Paul Jackson, da Universidade de Northampton, e Graham Macklin, da Universidade de Oslo, sugerem que a falta de propósito entre os jovens e a busca por respostas para suas frustrações em conteúdo extremista, muitas vezes permeado por temas de hipermasculinidade, contribuem para essa adesão. Macklin observa, ainda, que a média de idade dos agressores tem diminuído.
Apesar da escalada, as autoridades russas (como de costume) parecem evitar a publicidade sobre a existência e a atuação de neonazistas internos, possivelmente para não contradizer a narrativa oficial de que o neonazismo existe apenas fora de suas fronteiras, especificamente na Ucrânia. Em Kostroma, o movimento continua a crescer, com um ex-membro relatando um aumento de 15 para 40-50 integrantes em um ano, predominantemente adolescentes, movidos pelo desejo de “se encaixar” e “criar uma imagem de machão”.
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