“A libertação do Irã será um evento global”
A escritora holandesa Dina-Perla Portnaar denuncia como o Irã usa religião e punição pública para manter controle total sobre o corpo e a fala da população.
A escritora, filósofa e ativista holandesa Dina-Perla Portnaar publicou nesta quarta, 26, no site Courage Media, o artigo intitulado “A ópera de propaganda do Irã” (“Iran’s Propaganda Opera”).
Ela afirma que o regime iraniano usa o véu obrigatório não apenas como imposição religiosa, mas como peça central de um sistema de controle político e simbólico, no qual “mulheres são espancadas nas ruas não apenas por estarem sem véu, mas por ameaçarem a estética da piedade”.
Segundo Portnaar, o Irã elevou o controle sobre o corpo feminino ao status de espetáculo estatal. “Execuções públicas são encenadas como espetáculos de justiça”.
Luto, punição e dor são transformados em instrumentos de coerção social.
A nova lei sancionada em dezembro de 2024, intitulada “Lei de Proteção da Família por meio da Promoção da Cultura da Castidade e do Hijab”, dá respaldo legal à repressão com penas que vão de multas exorbitantes a morte por “corrupção na terra”.
“Uma herege não apenas ofende a Deus; ela quebra o personagem”. Para a autora, as mulheres que não usam véu ou questionam sua obrigatoriedade não são vistas apenas como infratoras, mas como ameaças à ordem ideológica.
Elas rompem com o enredo oficial imposto pelo Estado, cuja narrativa depende de sinais visuais de submissão.
“O Estado se torna dramaturgo, profeta e punidor”.
Portnaar mostra como o regime teocrático usa símbolos religiosos como dispositivos de controle, legitimando o uso da violência com base em um roteiro que associa o corpo feminino à moral pública.
A nova lei tipifica como crime qualquer forma de “desnudez, indecência ou má vestimenta”, termos deliberadamente vagos, e pune até com pena de morte quem compartilha imagens sem véu com a imprensa estrangeira.
“A mulher sem véu não está apenas descoberta; ela está sem script”.
A recusa pode resultar em multas de até US$ 22 mil, proibição de viajar, de usar redes sociais e até 15 anos de prisão.
“Liberdade não é apenas corporal. É epistemológica”.
Portnaar destaca que sair de uma prisão no Irã é escapar da prisão da narrativa oficial.
O artigo afirma que dezenas de presos políticos foram libertados sob pressão ou conseguiram fugir nos últimos meses.
Para ela, não se trata apenas de fuga física, mas de retomar o controle sobre a própria história.
“Sair de uma prisão iraniana é escapar de um roteiro ideológico”.
A lei permite que milicianos, agentes da Guarda Revolucionária e outros “vigilantes” ataquem fisicamente mulheres que desafiam o véu, sem qualquer punição legal.
Quem tentar impedi-los também pode ser preso ou multado.
A criminalização se estende até a empresas que permitirem a entrada de mulheres sem véu.
“O Irã obriga todos a escolher um lado, usar um símbolo e repetir uma narrativa”.
Para Portnaar, esse sistema exige participação ativa: silêncio, neutralidade ou dúvida são vistos como insubordinação.
A autora afirma que o ato mais subversivo atualmente talvez seja se recusar a participar do teatro estatal — inclusive se recusando a exibir o luto segundo o protocolo do regime.
“Ato radical hoje talvez seja o silêncio. Não o da apatia, mas o da recusa de interpretar o luto sob comando”.
A autora critica também o Ocidente, que frequentemente responde com gestos simbólicos vazios — hashtags, filtros de foto, discursos em eventos culturais — em vez de pressionar diretamente o regime.
O texto encerra com um contraste emocional.
Portnaar relembra uma cena do filme Mamma Mia, em que mulheres abandonam tarefas domésticas e dançam ao som de ABBA. “Assisto àquela cena com lágrimas porque mostra o que a liberdade poderia ser. O fim da performance”.
Para ela, o gesto de dançar livremente nas ruas continua inacessível para milhões de mulheres iranianas.
“A libertação do Irã será um evento global”.
A autora conclui que a repressão imposta pelo véu obrigatório não é apenas um problema iraniano, mas uma questão que exige reação internacional concreta.
O silêncio cúmplice de governos e organizações, segundo ela, apenas prolonga o sofrimento de mulheres que lutam por algo simples: o direito de existir sem medo.
Quem é Dina-Perla Portnaar
Dina-Perla Portnaar é escritora, filósofa, jornalista e ativista holandesa.
É autora do livro Exodus from the House of Bondage, no qual relata sua saída de uma comunidade judaica ortodoxa.
Atua internacionalmente em campanhas por direitos humanos, especialmente na defesa de mulheres perseguidas por regimes autoritários.
Já colaborou com veículos como The Times of Israel, Jewish Independent e Courage Media, e é reconhecida por sua crítica contundente à instrumentalização religiosa da repressão.
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