Estudo indica que mídia e público já não são mais os mesmos
Comportamento e preferências do consumidor de informação força mudanças estruturais da imprensa tradicional
O panorama do consumo de notícias na América Latina está passando por uma significativa reconfiguração, conforme aponta a mais recente edição do relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo.
O estudo, que considerou uma amostra expressiva de pessoas em seis continentes e 48 mercados, incluindo seis países latino-americanos (Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, México e Peru), revela uma clara migração de audiência dos veículos de mídia tradicional – como televisão, jornais impressos e sites de notícias – para plataformas de vídeo online e criadores de conteúdo digital.
Paralelamente, o surgimento e a crescente relevância dos chatbots baseados em inteligência artificial generativa se destacam como uma nova via de acesso à informação, especialmente entre as gerações mais jovens.
A nova dinâmica do consumo de notícias
A pesquisa, em sua 14ª edição, evidencia um contínuo declínio do público da mídia tradicional, em contraste direto com o notável crescimento das audiências de criadores de conteúdo e o aumento da dependência de plataformas de redes sociais e vídeo.
Na Argentina, por exemplo, o formato de vídeo online ao vivo, que mescla informação e entretenimento, experimentou um crescimento exponencial, com o canal Luzu TV sendo citado como fonte de notícias por 8% dos entrevistados. No Brasil, grandes jornais têm investido em videocasts, alguns diários, acumulando milhões de visualizações.
O impacto das redes sociais é particularmente visível no TikTok, que registrou um aumento de 5 pontos percentuais na Colômbia (atingindo 27%) e de 6 pontos percentuais no Peru no último ano em relação ao consumo de notícias. No México, apresentadores de TV e colunistas de jornais estão cultivando suas próprias audiências no YouTube, com programas influentes como Sin Máscaras e o canal Sin Embargo.
De acordo com Nic Newman, autor do relatório, a dependência das redes sociais é “alta em toda a região”, e muitos veículos tradicionais apresentam uma presença digital “bastante fraca”. Ele também observa que políticos estão utilizando as redes e transmissões ao vivo para estabelecer uma conexão direta com o público, frequentemente criticando a mídia tradicional que os questiona.
Confiança, IA e desafios de sustentabilidade
A confiança global no jornalismo, que se mantém estável em 40% há três anos, reflete uma média regional de 36,3% nos seis países latino-americanos analisados. Contudo, a maioria desses países, incluindo Brasil (-12 pontos), Colômbia (-8), Argentina (-4) e México (-1), registrou queda neste índice.
Abel Escudero Zadrayec, consultor do Reuters Institute, descreve uma inversão no prestígio jornalístico: “Hoje, vivemos quase o oposto”, sugerindo que os jornalistas precisam reconhecer que “estamos fazendo algo muito errado”.
Apesar disso, o público ainda busca a mídia tradicional para verificar a veracidade das informações e acompanhar notícias de última hora, com a confiança sendo maior nestes veículos do que em influenciadores em momentos de crises, mas Nic Newman pontua que “confiar não é o mesmo que consumir”, indicando que muitas vezes o consumo é motivado por entretenimento, onde a precisão pode ser secundária.
O relatório aborda, pela primeira vez, o uso de chatbots de inteligência artificial (IA). Globalmente, 7% das pessoas (e 6% na América Latina) utilizam chatbots de IA generativa, como o ChatGPT, para acessar notícias. Esse número sobe para 15% entre jovens com menos de 25 anos em todo o mundo. No entanto, o público geral mantém um ceticismo sobre o uso de IA no jornalismo, preferindo a supervisão humana.
Amy Ross Arguedas, pesquisadora do Instituto Reuters, pondera que ainda não está claro “como as pessoas estão usando esses recursos para consumir notícias”, seja para manchetes gerais ou detalhes específicos. No Brasil, redações já empregam IA para tarefas como tradução e geração de insights, mas veículos tradicionais enfatizam a necessidade de constante supervisão humana.
Economicamente, a mídia latino-americana enfrenta desafios, como a recente suspensão de fundos dos EUA, o que impulsiona a diversificação de suas fontes de receita.
O mercado de assinaturas digitais ainda demonstra fragilidade, com a proporção de pagantes por notícias online não ultrapassando 18% na região. Na Argentina, apenas 11% dos entrevistados relataram pagar por notícias online, e muitos dos sites mais acessados não oferecem assinaturas pagas.
Nic Newman prevê que a transição para o pagamento direto será um processo demorado e inviável para todos os veículos, embora uma parcela do público esteja disposta a pagar por conteúdo “diferenciado” e considerado valioso.
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