Deveríamos restringir ou promover o comércio de rua?
Tendência de expulsar, regulamentar e restringir o comércio de rua parte de uma concepção limitante do espaço urbano
Vendedores ambulantes, feiras de rua e mercados públicos representam muito mais do que atividades comerciais: eles são elementos fundamentais para impulsionar cidades prósperas, inclusivas e vibrantes, conforme destacado em uma análise sobre economia e gestão urbana publicada em junho de 2025.
Longe de um problema a ser erradicado (ou regulado, o que muitas vezes, dá na mesma), a integração bem-sucedida dessas formas de comércio deveria ser tida como essencial para a vitalidade dos espaços públicos e para o dinamismo das economias locais. A prosperidade urbana depende da capacidade de acolher todo o espectro de atividades comerciais, das informais às formais.
Desafios atuais e a visão histórica deturpada
Apesar do potencial inegável, uma percepção negativa persistente sobre o comércio informal afeta inúmeras metrópoles. Infelizmente, em diversas partes do mundo, muitos governos optam por remover vendedores de rua e destruir feiras locais.
Essa abordagem representa um erro recorrente, especialmente considerando que as cidades, em suas origens mais remotas, formaram-se precisamente em torno de comércios de rua informais. Há uma tendência de substituir essas atividades que vitalizam o espaço público e estimulam a vida social por um varejo internalizado, que meramente extrai valor do fluxo de pedestres sem contribuir para a criação de um lugar atrativo – um conceito conhecido como placemaking.
O planejamento urbano adota ideais predominantemente ocidentais, focando na maximização do fluxo de diversos modos de transporte, na elevação dos aluguéis comerciais e na ênfase em conceitos de design e branding.
Essa perspectiva desconsidera o propósito central dos sistemas de transporte e das ruas: criar locais onde as pessoas genuinamente desejem estar. Ao desvalorizar e negligenciar espaços caracterizados como “caóticos” ou autogeridos, as atividades econômicas ali inseridas são forçadas a operar em situação de marginalidade, e a cidade, por sua vez, exclui uma das formas mais elementares e essenciais de atividade econômica.
A construção de cidades vibrantes e inclusivas por meio do comércio
Para reverter essa tendência e fomentar o surgimento de uma verdadeira “cidade-mercado”, é crucial apoiar uma gama mais ampla de comércios e atividades econômicas locais que impulsionam os espaços públicos.
Segundo Ethan Kent, quando devidamente apoiados e valorizados, os vendedores ambulantes e a energia que trazem podem contribuir significativamente para conferir identidade às cidades, resultando na criação de lugares ou espaços icônicos que se tornam verdadeiros motores culturais.
Exemplos inspiradores incluem os livreiros às margens do Sena, em Paris; o vibrante mercado de flores de Mumbai; os artistas e quiosques das Ramblas de Barcelona; o mercado flutuante de Bangkok; e as feiras de fim de semana em La Paz, Bolívia, onde mulheres indígenas infundem vida e propósito em diversas ruas.
O apoio eficaz ao comércio informal deve começar pela valorização das calçadas e da venda nelas, garantindo que essas atividades contribuam e se beneficiem dos espaços públicos aos quais estão intrinsecamente conectadas.
Em vez de remoções arbitrárias ou regulações excessivamente restritivas, que frequentemente inviabilizam seu potencial de qualificação do espaço, a promoção do comércio ambulante como parte integrante de iniciativas de placemaking pode gerar destinos atraentes, incubar novos negócios e oferecer uma fonte essencial de renda com baixa barreira de entrada, além de disponibilizar produtos a preços acessíveis, uma oferta frequentemente insuficiente em muitas cidades.
O placemaking, formal ou informalmente, parte da maximização do uso público e da gestão do espaço, estimulando a participação e a autorregulação mesmo onde a capacidade de autogestão do comércio informal é limitada.
Para que a cidade do futuro seja saudável, inovadora e equitativa, é fundamental que o varejo formal se abra e se integre ao comércio informal, revitalizando a conexão social e a economia local, culminando em uma “cidade-mercado” com um espectro completo e coeso de mercados livres – formais e informais.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)