Sobre maquiagens, vinhos e motéis
Parlamentares tanto petistas quanto bolsonaristas reproduzem comportamento nada republicano de confundir o público com o privado
A polêmica envolvendo a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP, foto), que contratou dois assessores parlamentares que atuam também como seus maquiadores, sintetiza uma prática absolutamente comum e esgarça a hipocrisia tanto de bolsonaristas quanto de petistas quanto o assunto é o malfadado patrimonialismo parlamentar.
Essa não é a primeira vez – nem deverá ser a última – em que há a confusão entre público e privado por parte de um congressista. Ainda mais quando se trata de verba parlamentar. Eis aqui alguns casos.
Talvez o maior exemplo seja a ‘farra das passagens’ – escândalo revelado em 2009 pelo site Congresso em Foco. Naquele ano houve até deputado que pagou, com dinheiro público, viagens para famosos globais.
O ex-ministro e ex-deputado Fábio Faria usou sua cota de passagens para pagar viagens de atores da TV Globo – Kayky Brito, Sthefany Brito e Samara Felippo – para o Carnatal, carnaval fora de época da cidade de Natal. A sua ex-namorada Adriane Galisteu também teve passagens custeadas pela Câmara com o aval de Faria.
Já em 2010, o então deputado Pedro Novaes pediu ressarcimento da Câmara após pagar 2,1 mil em um motel; em 2014, os então deputados Flaviano Melo (PMDB-AC), José Airton (PT-CE) e Renato Molling (PP-RS), contataram com verbas parlamentares pacotes de TV a cabo que davam acesso a filmes pornôs e a jogos exclusivos do campeonato brasileiro; em 2016, Osmar Terra (MDB-RS), hoje da tropa de choque bolsonarista, pediu para que a Casa bancasse até a pipoca de seu cinema.
Cotão parlamentar para dentes e Uber para casa de ‘entretenimento adulto’
Em 2019, Marco Feliciano (PL) pediu reembolso de 157 mil reais por um tratamento odontológico que, em um primeiro momento, havia sido negado pelo departamento da Casa. No ano passado, o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA) pediu ressarcimento por um gasto de 4,1 mil reais em uma diária em um hotel de luxo no Rio de Janeiro.
Mas não ficamos por aí. Também no ano passado, o deputado federal Pedro Aihara (PRD-MG) pediu ressarcimentos após ter consumido salmão, vieiras e bebidas alcoólicas; e, em 2019, o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), ex-candidato à prefeitura de Niterói e um dos principais aliados de Jair Bolsonaro, usou dinheiro do cotão parlamentar para custar a passagem de Uber em uma ida a uma casa de ‘entretenimento adulto’.
Mas voltando ao caso Erika Hilton, a deputada federal pode ter quantos maquiadores quiser. A questão que fica é a confusão entre o público e o privado, ainda mais partindo de uma congressista que vira e mexe critica esse patrimonialismo parlamentar tão introjetado na cultura política brasileira.
Para quem se proclama como um oásis de moralidade, Erika Hilton se revelou – infelizmente – apenas mais uma engrenagem do velho estilo de se fazer política.
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Comentários (5)
Claudemir Silvestre
25.06.2025 22:54É o Governo do “AMOR” !!! 🤷🏻🤷🏻🤷🏻
Alexandre Ataliba Do Couto Resende
25.06.2025 10:33Dois errados não fazem um certo. Uma hora há de se começar a punir esses desvios.
MARCOS
25.06.2025 10:19NUNCA ME ENGANOU. SÓ ENGANA OS OTÁRIOS COMUNISTAS.
Marcia Elizabeth Brunetti
25.06.2025 08:13Tá errado qualquer partido fazer isso, mas fica trágico quando se fala de partidos que dizem defender os pobres trabalhadores, os socialistas e comunistas de ocasião. No caso de Érika Hilton, multiplico por dois. Afinal ela não é a dita minoria?
Clayton De Souza pontes
25.06.2025 07:59Nosso parlamento com raras excessões, faz com o dinheiro público o que faz na privada. É a tragedia dos comuns e a pessima forma de se gastar dinheiro dos outros com os próprios supérfluos