Como o programa secreto monitorava os alvos da Abin paralela
Inquérito da PF indica que integrantes do Poder Judiciário, da Câmara dos Deputados e da imprensa teriam sido vítimas de espionagem
Ao solicitar o indiciamento de Carlos Bolsonaro e Alexandre Ramagem (PL-RJ), a Polícia Federal apontou que o FirstMile, programa da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) desenvolvido pela empresa israelense Cognyte (ex-Verint), foi utilizado para monitorar desafetos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O inquérito indicou que integrantes do Poder Judiciário, da Câmara dos Deputados e da imprensa teriam sido vítimas de espionagem.
Em audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF), a PF e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) disseram que o FirstMile obtinha dados dos aparelhos celulares e coordenadas contendo a localização do equipamento por meio de antenas de telefonia, chamadas tecnicamente de Estação Rádio Base (ERB).
“Veja a gravidade disso: uma empresa estrangeira, no caso de Israel, acessa a nossa infraestrutura crítica de telefonia e com isso ela simula uma antena, uma ERB que vai possibilitar acessar o aparelho do cidadão inclusive inserindo agentes espiões para ter acesso a todos os dados do aparelho”, afirmou o diretor de inteligência da Polícia Federal, Rodrigo Morais Fernandes.
Segundo os peritos da PF, a localização do alvo “é posicionada no mapa com base nas coordenadas, juntamente com raio de precisão”, apropriando-se da vulnerabilidade de redes móveis que oferecem suporte às tecnologias 2G e 3G.
Essas tecnologias de comunicação utilizam, de acordo com a PF, um sistema de roteamento de chamadas e envio de mensagens chamado “Sistemas de Sinalização nº 7”.
“Há um consenso sobre a existência de diversas vulnerabilidades de segurança em redes móveis as quais fazem uso do SS7”, afirmou o laudo da PF.
34 indiciados
A Polícia Federal indiciou o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) após as investigações relacionadas à chamada Abin paralela.
O atual diretor da Agência Brasileira de Informações (Abin), Luiz Fernando Corrêa, também foi alvo da PF.
A investigação foi concluída nesta segunda-feira. Ao todo, foram 34 indiciados.
Para a PF, o ex-presidente da República foi beneficiário de uma organização criminosa que, desde 2019, atuou em um esquema ilegal de monitoramento de adversários de Jair Bolsonaro. Agora essa investigação segue para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Caberá à PGR definir se apresenta, ou não, novas denúncias.
De acordo com as investigações da Polícia Federal, a Abin paralela foi utilizada durante o governo Bolsonaro para favorecer filhos do ex-presidente, fazer ações de vigilância contra ministros do Supremo e políticos opositores. Entre os alvos estariam o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), o deputado Kim Kataguiri (União-SP) e o senador Renan Calheiros (MDB-AL).
A investigação também aponta que Ramagem teria gravado uma reunião com o ex-presidente para blindar o senador Flávio Bolsonaro.
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