Quem foi Gertrude Berg, a inventora – censurada – da sitcom

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Quem foi Gertrude Berg, a inventora – censurada – da sitcom

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Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 16.06.2025 18:10 comentários
Cultura

Quem foi Gertrude Berg, a inventora – censurada – da sitcom

Como criadora de “The Goldbergs”, uma das primeiras e mais influentes sitcoms americanas, foi relegada ao ostracismo

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Gustavo Nogy
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Quem foi Gertrude Berg, a inventora – censurada – da sitcom
Gertrude Berg

Nascida Tillie Edelstein em 1899, Gertrude Berg criou, escreveu, produziu e dirigiu uma das mais influentes sitcoms americanas: “The Goldbergs”. Foi a primeira showrunner de qualquer gênero, e influenciadora décadas antes de Oprah Winfrey ou Martha Stewart. Sua história, marcada por criatividade e resiliência, contrasta com a dolorosa obliteração de seu legado.

Influenciadora antes de haver influenciadoras

Em 1929, Gertrude Berg emergiu como uma força criativa inigualável no cenário do entretenimento americano. “The Goldbergs” estreou como uma série para o rádio, e rapidamente virou sucesso nacional. No ar durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, Berg não apenas estrelava como a icônica Molly Goldberg – dona de casa do Bronx com sotaque iídiche e propensa a gafes –, mas também produzia, escrevia e dirigia milhares de episódios sobre uma família judia imigrante trabalhadora.

A popularidade do programa catapultou Berg ao estrelato, rendendo-lhe o título de “segunda mulher mais admirada na América”, em uma pesquisa da Good Housekeeping, superada apenas por Eleanor Roosevelt. Sua influência se estendia para além do rádio, com uma coluna de conselhos, uma tirinha de humor, um livro de receitas best-seller e até uma linha de vestidos para mulheres.

Em 1949, Berg adaptou “The Goldbergs” para a televisão, à época, um meio ainda em seus primórdios e operando ao vivo. A série se tornou um sucesso instantâneo na CBS, e em 1951, sua criadora fez história ao ganhar o primeiro Emmy de melhor atriz, superando nomes como Imogene Coca, Helen Hayes e Betty White.

O programa retratava com empatia e senso de humor uma família judia imigrante que, apesar de sua especificidade cultural, era apresentada como “americana comum, patriota e emocionalmente identificável”, uma ideia provocadora para a época.

A série também veiculava temas progressistas, como apoio aos trabalhadores e ao New Deal. Chegou a apresentar episódios especiais de Seder judaico que, de acordo com Emily Nussbaum, na serviam como “contraprogramação” ao discurso antissemita que circulava no rádio. Berg ativamente buscava a diversidade nos bastidores, contratando artistas de esquerda e ativistas pelos direitos civis, como a atriz negra Fredi Washington.

A política, a lista negra e o esquecimento

O apogeu de Berg na televisão foi abruptamente interrompido pela atmosfera de paranoia da era McCarthy. Em 1950, Philip Loeb, o ator que interpretava Jake Goldberg, marido da personagem Molly, foi listado no infame “Red Channels”, um livro anticomunista que expunha artistas supostamente subversivos, uma “compilação amadora de insinuações apresentadas como fatos”.

Apesar da intensa pressão de patrocinadores e da CBS, Berg lutou ferozmente por Loeb por um ano e meio, recusando-se a demiti-lo e ameaçando boicotes, tática que já havia usado para manter o programa no ar. No entanto, o macartismo era insaciável. A CBS acabou retirando “The Goldbergs” de sua programação, substituindo-o por “I Love Lucy”.

Para Nussbaum, crítica da The New Yorker, na “história que os americanos aprendem sobre a televisão, tudo começou nos anos cinquenta”, com “I Love Lucy”. Berg transferiu sua criação para a rede DuMont, mas a pressão sobre Loeb ficou insustentável. Em janeiro de 1952, ela cedeu, e Loeb foi demitido. Incapaz de trabalhar, o ator cometeu suicídio em 1955.

O impacto do caso Loeb reverberou profundamente na produção televisiva. “The Goldbergs” continuou, mas com um novo Jake e, pouco a pouco, perdeu sua essência política e sua excentricidade cultural. A família se mudou para um subúrbio de Connecticut, e Molly se tornou uma figura menos incisiva, ganhou uma versão diluída, para agradar a uma audiência mais ampla e evitar controvérsias.

Quando a sitcom saiu do ar, em 1956, o legado de Gertrude Berg já começava a desaparecer. Seu trabalho, que desafiou estereótipos e promoveu uma representação inclusiva, foi gradualmente esquecido, em parte porque muitos de seus episódios não foram reprisados. A indústria da televisão se tornou “resistente a qualquer coisa que os executivos considerassem ‘muito judia’”, levando a uma escassez de personagens judeus na televisão por décadas.

Apesar de algumas tentativas recentes de revisitar sua obra por meio de biografias e documentários, Gertrude Berg continua sendo uma figura subestimada na história da televisão. Sua trajetória serve como um lembrete, de como eventos políticos e pressões da indústria podem silenciar vozes inovadoras e reescrever a própria história cultural.

A dificuldade em encaixar a vida de Berg em uma narrativa “feel-good” de nostalgia, como outras sitcoms dos anos 50, contribuiu para seu esquecimento. É como se fosse melhor deixar pra lá e não tocar mais no assunto. Muita gente teria que se explicar, mas não teria explicações a dar.

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