Hanson: “Nunca vimos nada parecido na história militar”
O historiador militar americano Victor Davis Hanson alerta que o ataque ucraniano contra o território russo rompe paradigmas e promete uma retaliação inédita
O historiador militar americano Victor Davis Hanson publicou vídeo com o título “A ofensiva relâmpago da Ucrânia leva a guerra para uma nova e perigosa direção” (abaixo, em inglês), em que analisa as consequências estratégicas do recente ataque ucraniano com drones contra alvos dentro da Rússia.
Segundo ele, o impacto no futuro do conflito é muito grave: o ataque rompeu regras tácitas entre potências nucleares e pode gerar uma retaliação sem precedentes.
“Só quando pensávamos em trégua, a Ucrânia atacou como nunca antes. E foi muito eficaz.” Hanson descreve o episódio como um divisor de águas no conflito que já se arrasta há mais de três anos.
As forças ucranianas conseguiram, por meio de caminhões, lançar drones contra alvos estratégicos a até 2.500 km de distância da fronteira, incluindo bases árticas russas de onde partem mísseis e bombardeiros nucleares.
O impacto da ação foi direto: “Destruiu 30% a 35% da frota de bombardeiros estratégicos da Rússia — US$ 7 bilhões, 41 dessas enormes aeronaves.”
Algumas das aeronaves atingidas tinham funções de inteligência e vigilância. O ataque foi seguido por uma ofensiva semelhante contra a ponte de Kerch, principal ligação terrestre entre a Crimeia e a Rússia continental.
O analista aponta que a Ucrânia teria abandonado a expectativa de vencer uma guerra convencional: “Não vai desperdiçar sua mão de obra limitada em confrontos diretos. Vai usar drones e vai fabricar mais de um milhão deles.”
Hanson destaca que, embora os ucranianos tenham perdido terreno e milhões de civis tenham deixado o país, “o problema da Ucrânia hoje não é tecnologia, nem dinheiro, nem armamento — é gente.”
O exército está envelhecido, a média de idade dos recrutas passou dos 30 anos e a linha de frente praticamente estagnou.
A possibilidade de paz, segundo ele, chegou a ser considerada em moldes semelhantes ao acordo feito pela Finlândia com Stalin em 1940: “Zelensky poderia ceder o Donbas e a Crimeia, não entrar na Otan e garantir a sobrevivência do país.”
Hanson afirma que o entrave agora vem do lado russo. “Trump percebeu que o problema não era mais Zelensky, mas Putin. Ele não pode voltar aos oligarcas e dizer: perdemos um milhão de soldados por isso.”
Com a nova ofensiva ucraniana, surge uma preocupação grave: “Nunca vimos nada parecido na história militar.”
Hanson afirma que não há mais garantias de contenção. “Se destruíram um terço da frota, o que impede de destruírem tudo? Como chegaram tão perto? Temos inimigos dentro do nosso próprio exército?” – seriam, segundo ele, as perguntas que circulam agora no alto comando russo.
“Vai haver retaliação”
Hanson lembra que, durante a Guerra Fria, havia uma regra clara: potências nucleares não usavam aliados para atacar diretamente o território uma da outra. E alerta: “Se Fidel Castro tivesse destruído um terço da nossa frota de B-52 em 1962, não miraríamos só em Cuba. Diríamos à União Soviética: vocês quebraram as regras.”
Ele reconhece a eficácia militar do ataque, mas deixa um aviso: “Isso vai provocar uma resposta. E é do tipo que nunca vimos antes.”
Para Hanson, o gesto ucraniano inaugura “uma fase perigosa da guerra, não apenas para a Ucrânia, mas também para a Otan e os Estados Unidos.”
Quem é Victor Davis Hanson
Victor Davis Hanson é historiador americano, especializado em história militar e cultura clássica.
Professor e pesquisador do Hoover Institution, é autor de livros como Carnage and Culture e The Second World Wars. Recebeu a Medalha Nacional de Humanidades nos Estados Unidos e é um dos principais comentaristas americanos sobre política externa e defesa.