Pesquisa da USP identifica biomarcador de impacto da radioterapia no cérebro
Os resultados podem ajudar médicos a minimizar o impacto do tratamento em pacientes com câncer
Um estudo inovador conduzido por pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, descobriu um indicador inicial dos efeitos da radioterapia no cérebro de pacientes com glioma, um tipo de tumor cerebral.
Antes mesmo das já conhecidas perdas de volume e espessura da camada que envolve o cérebro (córtex), observou-se um aumento na difusão de líquidos entre os tecidos cerebrais. Essa alteração na circulação da água pelas regiões afetadas surge como um potencial biomarcador precoce para orientar a proteção de áreas sensíveis durante o tratamento, sem contraindicar a radioterapia, fundamental para muitos casos de câncer.
Alterações sutis e áreas vulneráveis
A pesquisa, que avaliou imagens de ressonância magnética de pacientes em tratamento no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP), acompanhou as alterações cerebrais tanto a curto quanto a longo prazo após a radioterapia.
Conforme explicado pelas pesquisadoras Érika Joselyn Ludeña Maza e Renata Ferranti Leoni, o aumento da difusão da água indica uma perda de células ou atrofia localizada, criando mais espaço para o líquido se mover. Acredita-se que essa perda celular seja uma consequência indireta da radiação que afeta a permeabilidade dos vasos sanguíneos, facilitando a chegada de toxinas e o aumento da inflamação na região irradiada.
O estudo confirmou a vulnerabilidade de áreas como o hipocampo, essencial para memória e emoções, já conhecida por pesquisas anteriores. No entanto, identificou outras regiões críticas próximas ao hipocampo, como partes do lobo temporal, e também o lobo frontal.
Essas estruturas são particularmente sensíveis e podem sofrer danos que impactam a qualidade de vida dos pacientes após o tratamento. Os efeitos observados variam entre os indivíduos, sendo influenciados por fatores como a idade do paciente (com sugestão de maior suscetibilidade em pessoas mais velhas), a dosagem de radiação aplicada e o tempo decorrido desde o fim do tratamento.
Planejamento e proteção no tratamento
Os achados, publicados em março de 2025 no Journal of Neuro-Oncology, reforçam a importância do planejamento radioterápico para minimizar danos aos tecidos saudáveis. De acordo com as cientistas, se o médico, radioterapeuta e físico médico conseguirem realizar um planejamento que proteja essas regiões sensíveis, isso já representa um ganho significativo para o paciente. Para alguns tipos de glioma, já existem técnicas para proteger o hipocampo, e a pesquisa sugere a necessidade de cuidado similar com os lobos temporal e frontal.
Além do planejamento, estudos recentes sugerem que o uso de anti-inflamatórios específicos poderia ajudar a prevenir os impactos da radiação, atuando contra a neuroinflamação que ela provoca. É fundamental ressaltar que a pesquisa em momento algum sugere a não realização da radioterapia.
O objetivo é obter informações que permitam tratamentos mais seguros e com menor impacto na qualidade de vida, mantendo a prioridade no combate à doença, sempre buscando a dose de radiação tão baixa quanto razoavelmente possível.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)