Jair Bolsonaro e Eduardo tentam apagar CPI da Lava Toga da história
Ex-presidente compartilha vídeo cortado de 2019 e deputado federal licenciado culpa o “Brasil” pela amarelada que ele, seu irmão e seu pai deram com ministros do STF
A publicação feita no X pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (foto) nesta segunda-feira, 2 de junho, e as declarações de seu terceiro filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, feitas no fim da semana passada, mostram que ambos vêm tentando apagar a CPI da Lava Toga da história brasileira, já que atuaram contra a comissão.
Reproduzo abaixo os textos que publiquei no X nesta segunda e no domingo, 1º, respectivamente, sobre cada episódio.
Jair Bolsonaro tenta apagar CPI da Lava Toga?
Jair Bolsonaro compartilhou meu trabalho, de novo, com tarjas e edição para encobrir.
Publicou trecho de entrevista que eu fiz com Randolfe Rodrigues em 16/4/2019.
Título original é “CPI da Lava Toga é inevitável”; mas Bolsonaro, que sabotou a CPI, omitiu essa parte.
Deixou apenas críticas que o então senador do partido Rede Sustentabilidade fazia a Alexandre de Moraes e ao inquérito das fake news, além do anúncio de que pediria também o impeachment do ministro do STF (na esteira da censura à reportagem da revista Crusoé sobre Dias Toffoli, “o amigo do amigo do meu pai”).
Em 2019, Randolfe integrava o Movimento Muda Senado, encabeçado por Alessandro Vieira, que defendia a Lava Toga, entre outras medidas de fiscalização e reforma do Judiciário, enquanto Bolsonaro, Flávio e Eduardo faziam campanha contra a CPI que investigaria Dias Toffoli, inclusive pela abertura do inquérito das fake news, o primeiro relatado por Moraes. Toffoli, o então presidente do Supremo, blindava Flávio contra investigações de peculato.
Randolfe, portanto, era mais crítico do STF naquela época que a família Bolsonaro, que se aliou ao PT para enterrar a CPI, com Flávio apoiando o petista Rogério Carvalho no parecer contrário à comissão.
Repito: quem ficou ao lado do PT contra a CPI da Lava Toga foi a família Bolsonaro, não Randolfe, que nem era do partido.
A oposição do então senador da Rede ao governo Bolsonaro – que em nada muda os fatos históricos acima – se intensificou dois anos depois, em 27/4/2021, quando ele foi eleito vice-presidente da CPI da Pandemia.
Com a polarização eleitoral, Randolfe foi convidado por Lula em 18/1/2022 a integrar o “conselho político” de sua campanha e aceitou o convite em 22/2. Eleito, Lula escolheu Randolfe, em 29/12, para ser líder do governo no Congresso.
O senador só deixou a Rede em 18/5/2023 e ainda ficou 14 meses sem partido, até se filiar ao PT em 18/7/2024.
Vídeo cortado
Jair Bolsonaro, ao compartilhar o vídeo cortado do agora petista Randolfe, tenta mostrar que até o líder do governo Lula no Congresso já se voltou contra os abusos de Moraes (o relator que só virou alvo do bolsonarismo em 2020, quando seus ativistas viraram alvos do inquérito que os Bolsonaro deixaram crescer, aliás com endosso de dois indicados pelo então presidente: André Mendonça, na época advogado-geral da União, e Augusto Aras, então procurador-geral da República).
É até cômico que a publicação do ex-presidente tenha ocorrido um dia após bolsonaristas tentarem justificar, no X, a sabotagem bolsonarista da Lava Toga, alegando que Randolfe fazia parte dela, como se ele fosse, na ocasião, um petista infiltrado que faria tudo acabar em pizza, e como se realmente fosse melhor, então, boicotar a investigação antecipadamente.
Não era essa, claro, a alegação dos Bolsonaro em 2019, quando pressionaram senadores a retirar assinatura do requerimento de criação da CPI, como cada um deles detalhou em entrevistas para mim, jamais compartilhadas pelo ex-presidente. Na verdade, Flávio temia a “tensão entre os Poderes”, quando precisava do STF. “A quem interessa?”, perguntava ele, alheio ao futuro do Brasil.
Apesar das narrativas a posteriori, com as falsificações históricas típicas da propaganda política, a publicação feita por Jair Bolsonaro do vídeo cortado da minha entrevista só confirma um duplo vexame:
– o de Randolfe, que deixou de combater os abusos do STF após se unir a Lula;
– e o dos Bolsonaro, que se curvaram em 2019 ao STF, amarelando mais que Randolfe.
Eduardo Bolsonaro tenta apagar a CPI da Lava Toga?
Eduardo Bolsonaro disse à Veja:
“O Brasil deveria ter tido a decência de conseguir parar o Alexandre de Moraes. Não aconteceu. Por isso, tivemos que recorrer aqui às autoridades americanas.”
Não aconteceu porque Eduardo, Flávio e Jair Bolsonaro fizeram campanha contra a CPI da Lava Toga, pressionando senadores a retirarem assinaturas do requerimento de criação. É uma confissão involuntária de que faltou “decência” à família.
“Há quanto tempo está aberto o inquérito das fake news? Desde 2019”, perguntou e respondeu o deputado federal licenciado.
Sim, desde que eles próprios sabotaram a CPI que investigaria Dias Toffoli pela abertura do inquérito das fake news, o primeiro relatado por Moraes, dando início à sua concentração de poder sem precedentes. Na época, Toffoli blindava Flávio contra investigações de peculato.
Os Bolsonaro também se aproximaram de Gilmar Mendes, outro ministro do STF que seria alvo da CPI e que acabou votando pelo foro privilegiado retroativo de Flávio.
Na verdade, portanto, eles tiveram que recorrer (com 6 anos de atraso) às autoridades americanas (que, ao contrário do Congresso Nacional, não têm jurisdição para interferir no Brasil), simplesmente porque amarelaram para as brasileiras.
Alertei em 2019 que o momento para conter a escalada autoritária do STF era aquele; e ainda apontei a amarelada em tempo real; mas os Bolsonaro estavam mais preocupados com a situação da família que com o futuro do país.
Agora tentam levar o crédito da suposta contenção do problema que deixaram crescer, culpando descaradamente o “Brasil” pela sabotagem feita por eles.
Apesar das narrativas convenientes, os fatos são teimosos e estão todos registrados, em artigos e vídeos.
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