Josias Teófilo na Crusoé: A transcendência na imanência
Não é à toa que o barroco floresceu tão bem aqui, com suas formas sensuais e exuberantes que remetem ao sagrado
No filme Andrei Rublióv, dirigido por Andrei Tarkóvski, há uma cena memorável.
O personagem principal, o monge pintor de ícones, depara-se com um grupo de pagãos realizando um ritual nus no rio em meio à floresta.
Rublióv é amarrado por eles e fica preso, até que uma bela moça pagã o provoca sexualmente, completamente nua.
A cena representa, na minha interpretação, o encontro entre um paganismo perfeitamente imanente, sensual e voltado para a natureza, e um cristianismo transcendente, espiritual, separado do mundo.
Esta oposição não faz sentido no contexto da cultura brasileira.
É que a transcendência na nossa cultura se dá através dos sentidos, da natureza, e mesmo da sensualidade — não é à toa que o barroco floresceu tão bem aqui, com suas formas sensuais e exuberantes que remetem ao sagrado.
Até na retórica do Padre Antonio Vieira o sensualismo está presente: o apelo aos sentidos é constante nas imagens e metáforas feitas pelo orador, utilizando-se de paradoxos constantes, amplificação e persuasão.
Em Padre Antonio Vieira, a transcendência está na imanência inclusive no sentido histórico: Deus age na história, deixando clara a Sua ação, como no conflito dos holandeses com os portugueses pelo território do que hoje é o Nordeste do Brasil, tal como descrito em seus Sermões.
Ora, mas o que é o cristianismo se não a história do Deus que se fez carne e habitou entre nós? E não só habitou como viveu as vicissitudes humanas.
Só que a tradição ortodoxa russa — da qual Andrei Rublióv parte —, é mais mística, com seus cantos litúrgicos que enfatizam o mistério e seus ícones.
O que é o ícone? É uma manifestação do invisível no visível, tem função contemplativa e de oração.
A ortodoxia russa é um ponto intermediário entre o catolicismo, que dispõe de estátuas religiosas, ou seja, imagens tridimensionais, e o islamismo, que só usa formas abstratas.
Na ortodoxia…
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