“Negociar com Putin é inútil: ele está em guerra total com o Ocidente”
Escritor britânico Douglas Murray afirma que a guerra na Ucrânia virou estratégia de exaustão — e o Ocidente continua sem plano claro de resposta
O escritor e comentarista britânico Douglas Murray publicou nesta quinta, 29, no New York Post, o artigo intitulado “O manual de Putin é o mesmo de um quarto de século atrás — negociações de paz são inúteis”).
O texto argumenta que Vladimir Putin segue aplicando as mesmas táticas de intimidação e conquista desde a virada do século, e que esperar por qualquer solução negociada é pura ilusão — ele já decidiu prolongar a guerra até que o Ocidente canse.
“Bush olhou nos olhos de Putin e disse que viu sua alma. Colin Powell olhou nos mesmos olhos e disse que viu a KGB”, lembra Murray. Ele mostra como os EUA, desde o início, entenderam mal o caráter do líder russo. A invasão da Geórgia em 2008 foi o ensaio do que viria na Ucrânia, mas o Ocidente preferiu esquecer.
“Putin pode ser explícito ao falar com seu povo sobre a expansão que deseja — incluindo a reconstrução do império soviético”, diz Murray. O articulista acredita que Putin alterna entre discursos abertos e ambíguos, manipulando jornalistas estrangeiros e enganando seus interlocutores. Mas seu projeto é transparente: reconstruir a esfera de influência russa pela força.
“Esta semana, ele ordenou alguns dos maiores ataques aéreos contra a população da Ucrânia.” Mesmo com conversas em andamento com Donald Trump, Putin intensificou os bombardeios, o que levou o presidente a chamar a ação de “absolutamente insana”. O Kremlin respondeu dizendo que Trump estava sendo “emocional”.
“Enquanto adia reuniões e quebra promessas, Putin deliberadamente prolonga a guerra que começou.” Para Murray, o engano não está nas palavras, mas na crença de que ele negocia de boa-fé. O que existe é uma estratégia de desgaste militar e psicológico.
“Com a produção de armas acelerada e bilhões gastos na economia de guerra, ele tem poucos motivos para parar o conflito mesmo que quisesse.” A Rússia já opera em modo de guerra total, e seu povo está acostumado ao sacrifício — o que dá vantagem estrutural em guerras longas, diferente do perfil das democracias ocidentais.
“Putin sabe que, com os EUA sem ameaçá-lo e uma Europa desorganizada, as cartas estão em suas mãos”, acredita. O autor britânico vê na hesitação europeia um elemento central para o avanço russo. O tempo corre a favor de Moscou, e Putin sabe disso.
“Trump está certo ao exigir que os aliados europeus aumentem seus gastos com defesa — e essa pressão já começa a dar resultados”, reconhece.
O novo chanceler alemão, Friedrich Merz, prometeu elevar o orçamento militar do país a 5% do PIB, o dobro da meta mínima da Otan. Mas Murray ironiza: “Na prática, podemos todos morrer de causas naturais antes que a Alemanha consiga aumentar sua produção de armas.”
“Enquanto diz que busca a paz, Putin bombardeia a Ucrânia. Enquanto fala em futuro, celebra o passado soviético.” Murray cita como exemplo a nova estátua de Josef Stalin inaugurada em Moscou, cercada de flores, crianças e operários.
Um sinal claro da nostalgia imperial e da tentativa de legitimar a guerra atual com ecos da Segunda Guerra Mundial.
“É parte de um esforço para reabilitar o ditador soviético, responsável por mais mortes e miséria que qualquer outro líder russo.” Stalin é apresentado como modelo: um líder implacável que venceu uma guerra total. Putin quer repetir esse enredo — e conta com o apoio simbólico do passado para isso.
“Putin quer convencer seu povo de que sua guerra na Ucrânia é semelhante à de Stalin contra os nazistas.” O artigo termina com uma advertência: cabe ao Ocidente decidir se vai apenas observar esse uso consciente da escuridão da história russa — ou se vai encontrar uma forma de dissuadi-la.
O texto de Douglas Murray é importante porque parte da premissa de que não há mais negociação possível com Putin: só resta enfrentá-lo ou recuar. Com a Europa ainda lenta e os EUA divididos, a estratégia russa de guerra prolongada encontra poucas barreiras.
Quem é Douglas Murray
Douglas Murray é um escritor e jornalista britânico, colunista dos jornais The Spectator e The Telegraph.
É autor de best-sellers como “The Strange Death of Europe” (2017) e “The Madness of Crowds” (2019), nos quais discute temas ligados à identidade, cultura e política internacional.
Ganhou notoriedade por seu estilo combativo. Especialista em política externa e segurança, é uma das vozes mais influentes do debate europeu sobre Rússia, antissemitismo e liberdade de expressão.
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