Muito barulho por (quase) nada? Musk se afasta de Trump
Desacordo entre empresário de tecnologia e presidente americano antecipa saída do governo
Depois de muito barulho, expectativas altíssimas e acesso a informações privilegiadas, o bilionário Elon Musk se despediu do governo de Donald Trump, antecipando uma saída que já era dada como certa há semanas.
A decisão acontece em meio a uma crescente rejeição pública e críticas ao seu trabalho à frente do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), que tinha como objetivo (declarado) reformar a máquina pública. Analistas e integrantes de ambos os partidos políticos agora veem Musk como um peso político.
De protagonista a coadjuvante
Ao longo da campanha e no início do segundo mandato de Donald Trump, Musk era visto com frequência na Casa Branca, e interagia publicamente com o candidato, depois presidente. Até que veio o convite para chefiar um Departamento de Eficiência Governamental, apelidado de Doge. Mas nem Musk, nem o Doge, foram tão eficientes assim.
Aos poucos, declarações de lado a lado denunciavam o esfriamento da relação. Musk parece ter ficado surpreso com o fato de que a política funciona sob outros critérios, que não o de suas empresas. Se na Tesla ou no X, quem tem o direito de ser imprevisível é ele, no Salão Oval, esse papel cabe a Trump.
Rejeição pública e críticas à gestão
David Smith, colunista do jornal The Guardian, uma pesquisa da faculdade de direito da Universidade Marquette revelou que 58% dos americanos desaprovavam o desempenho de Musk à frente do Doge. O desgaste respingou na Tesla, que enfrentou protestos e queda nas vendas após o empresário manifestar apoio ao partido de extrema-direita AfD na Alemanha. A lógica da política é outra.
Em outro ponto de ruptura, Elon Musk gastou mais de US$ 3 milhões em uma eleição para a Suprema Corte estadual em Wisconsin. Apesar do “investimento”, seu candidato perdeu – para uma democrata – por significativos dez pontos percentuais. Musk passou a ser tratado como o Mick Jagger. Pé-frio.
Eficiente em quê mesmo?
As críticas ao Doge não vieram apenas da oposição. Rick Tyler, estrategista político conservador, criticou a condução da reforma do Estado, argumentando que cortes foram feitos sem planejamento ou melhoria da eficiência: “O que eles estão tentando fazer é tornar o governo menor, o que eu aplaudo, mas não o estão tornando mais eficiente, porque não houve nenhuma visão, nenhum plano para realmente fazer o governo operar com menos pessoas e menos dinheiro. Não há nenhuma reformulação. Isso é apenas corte e queima”. Integrantes do Partido Republicano agora consideram Musk uma “dor de cabeça”.
Já o deputado democrata Ro Khanna observou que o interesse de Trump no aliado diminuiu na mesma proporção em que a aprovação diminuía: “À medida que seus números diminuíam, o interesse de Trump também diminuía. Trump descarta pessoas quando seus índices de audiência caem, e isso é muito transacional. Não passa de um fascínio inicial e uma sensação de ser descartado”.
Para a cientista política Wendy Schiller, professora na Universidade Brown, o passeio do empresário pela Casa Branca “foi um balão de ensaio, um teste de como eles reduziriam os funcionários federais. Se funcionasse e a população aprovasse, ótimo;(…) mas usaram Musk como testa de ferro e como saco de pancadas. Quando o tiro saiu pela culatra, eles o dispensaram. Nada surpreendente”.
Donald Trump agradeceu a colaboração e jurou: “Eu amo Elon Musk! A mídia quer nos separar, e não está funcionando. Ele é ótimo!”
A impressão que ficou é outra.
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Comentários (1)
Maggie J
29.05.2025 18:23Nenhuma surpresa: « dois bicudos não se beijam ». Dois egos enormes não cabem dentro de um salão oval.