O homem que plantou uma floresta na cidade de SP
Executivo transformou área degradada em oásis verde na Zona Leste de SP; mais de 41 mil árvores foram plantadas
Em uma zona esquecida pelo poder público, brota, pelas mãos de um homem, uma floresta urbana. Da vida corporativa de sucesso a um dedicado “plantador de árvores” – Hélio da Silva, 73 anos, dedicou as últimas duas décadas a uma missão ambiental que transformou uma área abandonada e degradada na Zona Leste de São Paulo em um deslumbrante parque urbano.
Da meta pessoal à missão pública
A jornada de Hélio da Silva – ou “Seo Hélio” – começou em novembro de 2003, quando decidiu que transformaria a área às margens do córrego Tiquatira, na época um local de descarte de lixo, ponto de uso de drogas e até estacionamento improvisado.
Com raízes na Zona Leste, para onde se mudou aos oito anos, Hélio sentiu a necessidade de retribuir à cidade que lhe deu oportunidades. Ele trabalhava se aposentou como executivo de grandes empresas para recomeçar como ambientalista acidental.
O começo foi difícil. Ele comprou as primeiras 200 mudas com recursos próprios, plantou-as sozinho nos fins de semana, para vê-las destruídas dias depois. A mesma coisa aconteceu após plantar mais 400. E assim por diante.
Longe de desanimá-lo, a destruição serviu de gatilho: “Pensei: poxa vida, se é tão difícil assim, não é todo mundo que faz. Então eu vou fazer”. Hélio via isso como uma provocação: a cada árvore destruída, ele plantaria mais.
Sua insistência chamou a atenção e, embora a maioria do plantio fosse solitária, após poucos recebeu alguma ajuda. Em 2008, ele havia plantado 5 mil árvores.
Nessa época, a prefeitura de São Paulo tinha planos para criar parques lineares. Hélio conversou com o então secretário de meio ambiente, Eduardo Jorge, e a área foi oficialmente transformada no Parque Linear Tiquatira Engenheiro Werner Eugênio Zulauf.
O Tiquatira se tornou o primeiro parque linear da cidade.
Um parque vivo e seus benefícios
O Parque Linear Tiquatira se estende por cerca de 3,2 a 3,5 quilômetros, oferecendo uma vasta área verde em uma região densamente povoada.
Hélio plantou ali a maioria das milhares de árvores, incluindo cerca de 30 mil só no parque, com mais de 170 espécies, predominantemente da Mata Atlântica. Elegarante que a taxa de sobrevivência seja superior a 90%. Compra adubo e mudas, arcando com os custos que, no ano passado, chegaram a cerca de R$ 40 mil.
Os benefícios da floresta urbana vão além da estética. Segundo Regina Maura de Miranda, professora da USP, áreas verdes urbanas proporcionam conforto térmico, com bairros arborizados apresentando temperaturas mais amenas, o que é crucial na Zona Leste, uma das áreas mais impermeabilizadas e quentes da cidade.
As árvores também regulam a temperatura, retêm água da chuva e ajudam a evitar enchentes. A biodiversidade floresceu: o parque atrai cerca de 40 espécies de pássaros, que ajudam a espalhar sementes, e até tucanos foram avistados. Para o biólogo Cesar Pegoraro, da SOS Mata Atlântica, manter áreas verdes em metrópoles é vital para a estabilidade humana e a qualidade de vida.
Frequentadores relatam sentir o frescor ao entrar no parque. Além dos benefícios ambientais, o parque melhorou a segurança e se tornou um ponto de encontro e lazer, com aparelhos de ginástica e pistas de caminhada.
Moradores a importância do Tiquatira em suas vidas, seja para desestressar ou como local de trabalho e amizades.
Hélio se emociona ao ouvir histórias de pessoas que superaram a depressão frequentando o parque. Para ele, as árvores dão muito mais do que ele lhes dá, e a maior recompensa é ver as pessoas utilizando o espaço.
Com a meta de 50 mil árvores plantadas, “Seo Hélio” planeja continuar plantando e inspirando outros, visitando escolas e sonhando com bibliotecas no parque, com a convicção de que “não vou morrer, vou virar árvore”.
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