Gustavo Nogy na Crusoé: E se a gente deixasse pra lá?
E se a moda dos bebês reborn não for mais do que um meme, um jogo, uma pegadinha, que só cresce porque há quem lhe dê atenção?
Alguns anos atrás, na pequena São João Batista do Glória, sul de Minas Gerais, entrou num mercado um bandido e anunciou o assalto.
Ninguém ligou.
Quem bebia continuou a beber, quem conversava continuou a conversar, quem empacotava continuou a empacotar, quem sequer reparou continuou a sequer reparar.
Insatisfeito com a fria recepção – a “desfeita”, como se diz em Minas –, o bandido de pouca audiência tomou impulso, recuperou o fôlego e reiterou, com ainda mais ênfase, com a convicção redobrada, com a fé dos catecúmenos, o anúncio do terrível assalto.
Nada. Nadinha. Nem um pelo eriçado.
O frustrado bandido saiu de lá correndo, certamente com medo do que vira, ou do que veria se ficasse.
Que eu saiba, foi a primeira vez que um assalto fracassou em virtude da indiferença dos assaltados.
Pois os frequentadores daquele mercado, e com eles a cidade de São João Batista do Glória, deveriam ser condecorados como os únicos pacifistas possíveis.
Os taoistas da persecução penal. Mais do que isso: deveriam ser contratados para ensinar algumas lições ao restante do país. Com humildade, tenho sugestão para elaborar a ementa.
Uma das lições, a primeira do semestre letivo, é a seguinte: bobagens têm de ser tratadas como bobagens. Frescuras têm de ser tratadas como frescuras. Encenações têm de ser tratadas como encenações.
Levar a sério bobagens, frescuras ou encenações é dar a elas uma vida que não têm ou não deveriam ter. Levar a sério é não se levar muito a sério.
Sim, concordo com vocês todos, pra não dizer que não falei dos bebês reborn, eles representam o zeitgeist infantilizado da nossa cultura e blábláblá.
Aliás, não só os bebês reborn e mamães reborn, mas os rapazes que se comovem com as escalações de elenco da Marvel e da DC, os homens já razoavelmente calvos que colecionam “action figures”, os japoneses que vivem como personagens, os fiéis que fazem fila a cada…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)