Um país governado pelo marido da primeira-dama
A disposição à cordialidade se mistura aos preconceitos de classe e à burocracia que nos sobrou do império, num país que, antes de ser republicano, é sobretudo cartorial
A “entrevista” da primeira – primeira não! primeiríssima, única, onipresente – dama é um exemplo didático do que quis dizer o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, quando caracterizou o brasileiro como o “homem cordial”. O achado buarquiano foi aos poucos sendo mal-entendido, até se transformar em outra coisa.
Cordialidade, nesse caso, não deve ser entendida no sentido popular, mas no etimológico. Cordial, cordis, coração. O homem cordial não é o homem bonzinho, mas aquele que acha difícil lidar com a impessoalidade que se espera da vida pública.
As paixões se sobrepõem às razões. Os conflitos cívicos, políticos e profissionais são quase sempre entendidos como brigas em família. A crítica é vista como ofensa. A regra nunca é regra, é sempre exceção a meu favor ou contra mim.
Essa disposição se mistura aos preconceitos de classe e à burocracia gorda e ineficiente que nos sobrou do império, num país que, antes de ser republicano, é sobretudo cartorial.
Nos poucos momentos em que se esquecia de elogiar suas próprias habilidades diplomáticas, que certamente encheriam de orgulho o Barão do Rio Branco e de inveja o Ruy Barbosa, Janja se referia a Lula com o afetuosíssimo “meu marido”. Meu marido isso, meu marido aquilo. Meu marido deixa, meu marido não deixa. Meu marido gosta, meu marido não gosta.
De fato, caso alguém ainda não saiba, Lula é marido da Janja. Mas, em uma entrevista que se pretenderia de interesse público, para esclarecer certas declarações não muito oportunas, Lula deveria ser mencionado como “o presidente”. “O presidente Lula”. Pois, gostemos ou não, é isso o que ele é.
Reduzir o cargo institucional ao papel matrimonial é fundir e confundir o público e o privado. É dizer – indiretamente; mas, ainda assim, dizer – que ela faz o que quer porque é esposa de quem é. Ela é a dona da casa. Como se a já ultrapassada função de primeira-dama fizesse dela a mamãe dos pobres. Ou a madrasta.
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