A cruzada ambiental de Sebastião Salgado no Vale do Rio Doce
Fotógrafo superou a depressão e, ao lado da esposa, se dispôs a recuperar matas e nascentes da região onde cresceu, em Minas Gerais
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, falecido nesta sexta-feira, 23, em Paris, aos 81 anos, conhecido mundialmente por suas poderosas imagens em preto e branco, dedicou-se tanto quanto à proteção da natureza no Brasil, transformando a propriedade rural de sua família em uma reserva natural.
Esse projeto, focado no reflorestamento e na reabilitação de nascentes, é gerido pela organização não-governamental Instituto Terra, fundada por Salgado e sua esposa, Lélia. O esforço de preservação, que começou na Fazenda Bulcão, em Aimorés, Minas Gerais, expandiu-se com o apoio financeiro da Alemanha, através do Instituto de Crédito para a Reconstrução (KfW), desde 2023.
A iniciativa não só revitalizou a paisagem degradada da fazenda onde Salgado passou a infância, como também inspirou projetos de educação ambiental, e busca restaurar toda a bacia do Rio Doce.
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Da lente ao plantio: a gênese do Instituto Terra
A transição de Sebastião Salgado, nascido em 1944, de documentar injustiças sociais e conflitos ao redor do mundo, para focar na natureza, foi impulsionada por uma crise pessoal profunda. Após testemunhar eventos terríveis em Ruanda e na guerra da Iugoslávia na década de 1990, Salgado adoeceu, sentindo “vergonha de pertencer à espécie humana”.
Ao retornar à fazenda de seus pais, esperando encontrar uma floresta tropical, deparou-se com uma paisagem estéril e doente. Foi sua esposa, Lélia Wanick Salgado, quem teve a visão: “Temos que replantar a floresta que estava aqui antes”.
Essa ideia deu origem ao Instituto Terra, criado em 1998. O início do projeto de reflorestamento foi desafiador, com 60% das mudas iniciais morrendo devido à falta de nutrientes, escassez de chuvas e solo esgotado.
No entanto, ao longo de 26 anos, Salgado e sua equipe desenvolveram técnicas mais eficazes, resultando no reflorestamento das colinas da Fazenda Bulcão e no desenvolvimento de outros projetos. Salgado relata que a vida retornou à fazenda – insetos, pássaros e os primeiros mamíferos – e, com ela, sua própria vontade de viver.
O Instituto Terra além de Salgado
Além do reflorestamento, o Instituto Terra trabalha na reabilitação de nascentes, essenciais para a disponibilidade de água. Muitas nascentes em terras vizinhas estavam desprotegidas, secando com o sol e a passagem do gado. O instituto tem plantado ao redor de nascentes secas para que voltem a brotar, e várias já apresentam sinais de recuperação na fazenda. A educação ambiental, por meio de projetos como o “Terrinhas”, dedicado às crianças, é outra frente de atuação, ensinando sobre o ciclo da água e reciclagem.
O trabalho do instituto depende de doações para manter sua equipe de 30 funcionários e a infraestrutura, que inclui um viveiro de árvores e veículos. O apoio financeiro alemão, via KfW, que desde 2023 é o mais importante, destina 13 milhões de euros para metas ambiciosas. Essas metas incluem o reflorestamento de mais 2.200 hectares, a reativação de mais de 2.000 nascentes e cursos d’água, e a realização de programas de treinamento e consultoria para disseminar tecnologias de reflorestamento e uso sustentável.
Convencer pequenos agricultores a destinar áreas para proteção é um desafio, pois isso pode afetar a produção imediata. Gilson Oliveira, gerente de projetos do Instituto Terra e agricultor, explica que, após tentar convencer fazendeiros individualmente, agora abordam cooperativas e associações rurais, superando metas provisórias de reflorestamento. A introdução de áreas agroflorestais é vista como um próximo passo para melhorar o balanço hídrico e gerar renda adicional, potencialmente complementada por pagamentos de equalização a longo prazo.
O grande sonho de Sebastião e Lélia Salgado sempre foi audacioso: reflorestar toda a bacia do Rio Doce, uma área de 90.000 quilômetros quadrados, e reabilitar suas 360.000 nascentes: “Nos dias de hoje, precisamos simplesmente plantar árvores e cultivar a biodiversidade para viver em paz no mundo”, disse Sebastião Salgado, não muito tempo antes de morrer.
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