Museus europeus iniciam devolução de artefatos saqueados da África
Instituições de Holanda e França devolvem centenas de obras artísticas apropriadas durante conflitos e ocupação colonial
Museus da Europa estão sob pressão crescente para devolver artefatos culturais saqueados durante o período colonial.
Recentemente, dois movimentos significativos ganharam destaque: a Holanda reconheceu que objetos artísticos foram roubados e aceitou devolver bronzes históricos à Nigéria, o que também havia feito a França, que repatriou obras de arte do Benin, impulsionando um “despertar artístico” no país africano. Essas restituições são vistas como parte de um fluxo gradualmente constante, segundo historiadores da arte.
A decisão de restituir bens culturais apropriados durante períodos de opressão colonial responde a uma demanda de longa data e reflete a crescente pressão sobre governos e instituições ocidentais. Países em toda a África Ocidental e Central, como Senegal, Costa do Marfim, Benim, Congo e Nigéria, estão agora trabalhando com nações europeias como França, Bélgica, Alemanha e Holanda para desenvolver processos mais sistemáticos.
Segundo a historiadora francesa Bénédicte Savoy, coautora de um relatório sobre restituições, grande parte da herança artística do passado da África ainda reside em acervos de museus na Europa e nos Estados Unidos.
O retorno da realeza ao Benin
Em setembro de 2022, a França concluiu a devolução de 26 artefatos históricos ao Benin. Essas peças haviam sido roubadas pelas forças coloniais francesas em 1892, durante o saque ao palácio do rei Béhanzin.
Entre os itens estão efígies de madeira dos reis Béhanzin e Glèlè, retratados em formas híbridas de homem e animal, dois tronos e quatro portões pintados do palácio de Béhanzin. Até o ano anterior à repatriação, as obras estavam expostas no museu Quai Branly, em Paris.
Segundo Elian Peltier, correspondente do The New York Times em Cotonou, capital beninense, a devolução permitiu a descendentes da realeza, como Euloge Ahanhanzo Glèlè, de 45 anos, verem pela primeira vez em solo pátrio o trono de seus ancestrais.
Glèlè, escultor e descendente do rei Glèlè, expressou a esperança de que o retorno das obras incentive os beninenses a aprofundar o estudo da história e herança artística de seu país. Ele descreveu a situação como uma espécie de “renascença” após um longo período, desde o final do século 19.
O governo do Benim organizou uma exposição gratuita das obras restituídas no palácio presidencial. Promovida intensamente, a mostra, intitulada “Arte Beninense Ontem e Hoje: Da Restituição à Revelação”, atraiu mais de 200 mil visitantes, dos quais 90% eram beninenses.
A exposição também destacou o trabalho de artistas contemporâneos, como o próprio Ahanhanzo Glèlè e Julien Sinzogan, posicionando-o ao lado das peças antigas. Segundo Sinzogan, participar da mostra foi uma honra que lhes concedeu “parte da posteridade”. Após o sucesso inicial, a exposição foi reaberta em julho.
Apesar do sucesso da exposição, Euloge Ahanhanzo Glèlè reconhece que o retorno dos artefatos não suprirá instantaneamente as lacunas no conhecimento da população sobre o passado do país. Ele relata a dificuldade que os beninenses, incluindo seus próprios filhos, têm em conhecer sua história.
Para abordar essa questão, o governo beninense está construindo novos museus, incluindo um dedicado à escravidão em Ouidah, e outro para promover artistas contemporâneos. Um grande mural de arte de rua em Cotonou também celebra o passado e o futuro de Benim.
Bronzes do Benin retornam à Nigéria
Em maio de 2025, um museu na Holanda iniciou a devolução de 113 Bronzes do Benim à Nigéria.
As esculturas antigas, saqueadas há mais de 120 anos, estavam no Wereldmuseum (Museu Mundial) em Leiden. Segundo a AFP, a diretora do museu, Marieke van Bommel, afirmou que essas esculturas foram obtidas de forma violenta e “devem ser devolvidas para casa”. A Holanda concordou em devolver um total de 119 artefatos, incluindo seis de outro museu em Roterdã. A Alemanha também começou a devolver peças que possuía.
A história dos Bronzes do Benin remonta a 1897, quando nove oficiais britânicos foram mortos durante uma missão comercial no então independente Reino do Benin (atual Nigéria). Londres respondeu com uma sangrenta expedição punitiva, resultando na morte de milhares de habitantes, no incêndio da capital e no saque do palácio real, de onde centenas de obras de arte, incluindo os bronzes, foram roubadas. A maioria dessas peças foi posteriormente leiloada ou vendida para museus na Europa e nos Estados Unidos, a fim de financiar a própria expedição.
A Nigéria negocia a restituição dessas peças há mais de um século. O acordo com o museu holandês é visto como um exemplo a ser seguido. No entanto, nem todas as instituições concordam: o Museu Britânico em Londres, por exemplo, recusa-se a devolver parte de sua famosa coleção, citando uma lei de 1963.
Em 2023, segundo o ex-presidente nigeriano Muhamadu Buhari, as obras restituídas seriam entregues ao Oba, o chefe tradicional da região, e não ao Estado nigeriano. Há planos para a construção de um museu em Benin City, no estado de Edo, no sul da Nigéria, onde os bronzes poderão ser exibidos para o público.
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Comentários (1)
Claudio Fernando Cassius
21.05.2025 20:02E as múmias do museu do louvre, entre outros?