Conteúdo online agora prioriza mais engajamento que volume
Um dos instrutores de escrita criativa de maior sucesso aponta a direção de uma nova etapa na produção de conteúdo
Em uma mudança significativa na dinâmica da comunicação digital, o foco na produção massiva de conteúdo está cedendo lugar à busca por conexões genuínas e ressonância com o público.
Para David Perell, “The Writing Guy”, reconhecido por sua atuação no ensino de escrita online, estamos vivendo na “era do engajamento”, em que qualidade e conexão valem mais que alcance de distribuição ou volume de postagens.
Perell – que, para os padrões atuais, tem “poucos” seguidores no YouTube – argumenta que o número de seguidores ou a frequência de publicação foram aos poucos se transformando em métricas secundárias diante do poder de uma única peça – texto, vídeo, música, arte – de alta qualidade que capte a atenção do público certo.
Essa é a mesma intuição de Jack Conte, músico americano, que com sua esposa Nataly Dawn compõe a dupla musical Pomplamoose, mas que talvez seja mais conhecido por ser o cofundador e CEO do Patreon, plataforma de remuneração colaborativa de artistas, criadores e profissionais independentes.
Na palestra “Death of the Follower & the Future of Creativity on the Web” (A morte dos seguidores e o futuro da criatividade na internet), ele argumenta que milhares ou milhões de seguidores já não significam milhares ou milhões de discos vendidos, textos lidos, filmes assistidos. A lógica mudou. De certa forma, o espírito da velha internet – em que aproximação e fidelidade valiam mais que alcance e quantidade – está de volta.
A transição da distribuição para o engajamento
David Perell descreve uma transição fundamental no ambiente online. Anteriormente, na “era da distribuição”, o objetivo principal era garantir que o conteúdo fosse visto pelo maior número possível de pessoas. Nesse período, a consistência na publicação era crucial para o crescimento.
No entanto, o cenário mudou. Agora, se um determinado conteúdo “explode” e gera alto engajamento, o algoritmo das plataformas o impulsiona, independentemente do tamanho da base de seguidores do criador. Contas pequenas podem alcançar milhões de impressões porque o alcance está cada vez menos ligado ao número de seguidores e mais à interação que o conteúdo gera.
O professor destaca que, enquanto dez anos atrás, a soma de muita consistência e conteúdo mediano poderia ser preferível, hoje, conteúdo excelente, ainda que com consistência (constância) menor, tem maior potencial de impacto. Um único texto realmente bom – e, claro, “bom” tem algo de subjetivo – pode ser suficiente para atrair a atenção das “pessoas certas”.
O que gera conexão na nova era digital?
Para criar conteúdo que engaje, David Perell enfatiza a importância de dois elementos: personalidade e perspectiva.
É essencial que a escrita, por exemplo, soe autêntica, como se viesse de uma pessoa real, e que apresente um ponto de vista original, que vá além do consenso. A inteligência artificial (IA), embora útil para um primeiro esboço ou uma segunda revisão, ainda não gera grandes ideias ou a experiência vivida necessária para a originalidade.
A IA pode ajudar a refinar o pensamento ou sugerir analogias, mas o valor real ainda reside na condição humana: habilidade básica de escrita (onde a IA pode auxiliar), pensamentos ou histórias originais e, principalmente, a coragem de compartilhar isso com o público.
Segundo Perell, mesmo a noção de “polimento” excessivo não é mais persuasiva. Os criadores de maior sucesso são aqueles que admitem erros e se permitem ser vistos de forma mais humana. Vídeos exageradamente editados têm atraído menos atenção, porque a ideia de autenticidade estabelece confiança, algo que campanhas de grandes marcas, por vezes, lutam para replicar.
Ele, que é escritor e instrutor de escrita, e entrevista autores de sucesso dos mais variados segmentos, descreve a escrita online como um “veículo de serendipidade”, enviando um sinal que o algoritmo da internet — que Perell considera um dos “grandes presentes do mundo moderno” por sua capacidade de agregar pessoas com interesses semelhantes — entrega ao público mais propenso a se identificar.
Essa capacidade de sintonizar indivíduos faz da escrita online uma ferramenta poderosa para construir redes, especialmente à medida que, na vida offline, torna-se mais difícil encontrar pessoas com quem realmente nos identificamos.
Essa dinâmica está se espalhando por diversas plataformas, influenciada pelo modelo de algoritmo do TikTok, que prioriza destaques e torna o alcance menos previsível e mais focado no engajamento. Empresas – e até mesmo políticos, como não? – estão percebendo a necessidade de agir como entidades de mídia, contando suas histórias diretamente para construir confiança da audiência.
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