Rodolfo Borges na Crusoé: Literatura de protesto em muro
Torcida do Botafogo acrescenta um belo tijolo à literatura de protesto em muro brasileira, imortalizada pelo clássico “acobou a paz"
Antonio Candido diz, no prefácio à primeira edição de Formação da Literatura Brasileira, que “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca”. “Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós”, completa o crítico.
Foi no que pensei ao ver o último protesto da torcida do Botafogo contra o americano John Textor. “O ano começa qnd [quando], Tio Sam? Queremos jogador! Time fraco”, dizia uma das pichações nos muros do estádio Nilton Santos, em alusão à personificação dos Estados Unidos.
O Botafogo começou mal a temporada, depois de ganhar o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores da América na temporada passada, e a torcida perdeu a paciência com o bilionário dono do clube, acrescentando mais um belo tijolo à literatura de protesto de muro brasileira.
Valdisney
“Acorda blogueirinha”, protestou a torcida do Palmeiras em 2023, quando a presidente Leila Pereira ainda economizava à frente do clube, que é o que mais gastou nesta temporada no Brasil — parece que a blogueirinha acordou.
Entraram para a história também “Valdisney: até quando?”, de quando esse mesmo Palmeiras vivia tempos bem menos gloriosos e o chileno Valdívia não podia frequentar a Disney com a família em paz, e “A farra acabou!!! Sevandijas / Diretoria quilingue”, na qual a torcida do Grêmio demonstrou toda sua erudição, adquirida em episódios de Hermes e Renato.
“Acobou a paz”
Mas quem mais enriqueceu a vibrante literatura de protesto em muro e faixas brasileira foi a torcida do Corinthians. A pichação “acobou a paz” num dos muros do Parque São Jorge em 2013, após eliminação para o Grêmio na Copa do Brasil, com direito à famigerada cavadinha de Alexandre Pato contra Dida, virou um clássico instantâneo, pelo erro de ortografia.
É dos corintianos também o iconoclasta “Diretoria = ‘Jim Carrey’”, uma forma diferente de chamar os dirigentes do clube de “comédia” ou “palhaços”, assim como o protesto de inspiração política “Elenco Tiririca + sem vontade não fica”, realizado após a candidatura de outro palhaço, mas para a Câmara Federal.
Do campo político veio também “O SUS é melhor que o DM”, protesto dos torcedores do Flamengo em 2020 que trouxe embutido uma crítica ao Sistema Único de Saúde, na comparação com o departamento médico do clube.
Língua portuguesa
Mas uma das melhores formas de chamar atenção e entrar para a história nesse gênero literário é simplesmente escrever o mais errado possível.
“Displiçência, não”, já protestaram os corintianos em faixa com um “ç” ameaçador no lugar errado. “Devol-vão meu Inter”, cobraram torcedores colorados em 2020, desafiando a língua portuguesa. “Banda de pagode do Grêmio: Inimigos da vitória. É us guri do Rebaixasamba”, reclamaram os gremistas.
“Se as edições dos livros eram parcas, e lentamente esgotadas, a revista, o jornal, a tribuna, o recitativo, a cópia volante, conduziam as suas idéias ao público de homens livres, dispostos a vibrar na grande emoção do tempo”, diz Candido em Literatura e sociedade, esquecendo apenas dos muros e das faixas em seus exemplos, ao falar sobre os primórdios da literatura nacional.
Literatura empenhada
E como essas expressões de raiva e indignação futebolísticas se encaixam no cânone literário brasileiro? A resposta está no que Candido classificou como “literatura empenhada”.
O crítico diz que as primeiras obras literárias brasileiras continham “um elemento ambíguo de pragmatismo, que se foi acentuando até alcançar o máximo em certos momentos, como a fase joanina e os primeiros tempos da Independência, a ponto de sermos por vezes obrigados, para acompanhar até o limite as suas manifestações, a abandonar o terreno específico das belas-letras”.
“Como não há literatura sem fuga ao real, e tentativas de transcendê-lo pela imaginação, os escritores se sentiram frequentemente tolhidos no vão, prejudicados no exercício da fantasia pelo peso do sentimento de missão, que acarretava a obrigação tácita de descrever a realidade imediata, ou exprimir determinados sentimentos de alcance geral”, segue Candido, numa análise que ajuda a entender não apenas o histórico de engajamento político da nossa literatura, mas também do cinema, entre outras artes.
Esse peso do sentimento de missão…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)