Tem medo de voar? É bom já ir se acostumando
Mudanças climáticas alteram condições de voo, e turbulência serão cada vez mais frequentes
“Foi por medo de avião/ Que eu segurei/ Pela primeira vez a tua mão…”, cantava Belchior (1946-2017) em dos seus grandes sucessos.
Pois é bom quem tem medo de avião segurar a mão de alguém. Viajar pode se tornar significativamente mais turbulento nas próximas décadas, devido aos efeitos do aquecimento global, segundo um novo estudo.
A pesquisa indica que a ocorrência de turbulência em rotas aéreas movimentadas poderá quadruplicar. O fenômeno mais preocupante é a turbulência de céu claro, que não pode ser prevista ou detectada pelos instrumentos de bordo, e que já registra um aumento gradativo e considerável desde os anos 1970.
O que é a turbulência de céu claro e qual é sua ligação com o clima
Ao contrário das turbulências causadas por nuvens ou tempestades visíveis, a turbulência de céu claro surge sem aviso prévio para pilotos e passageiros. Ela é frequentemente provocada por correntes de jato – fluxos intensos de vento localizados a cerca de 10 a 13 quilômetros de altitude.
Essas correntes são compostas por camadas de ar que se movem em diferentes velocidades. O atrito gerado pela diferença de velocidade entre essas massas de ar é o que cria a turbulência. Essa turbulência é particularmente perigosa porque, por não estar associada à umidade, não aparece nos radares da cabine.
Paul Williams, professor de ciência atmosférica da Universidade de Reading, Reino Unido, estuda o tema há mais de uma década. Segundo Williams, o aquecimento global é o responsável pelo aumento da turbulência de céu claro.
O fator principal é o cisalhamento vertical do vento, que ocorre quando camadas de ar próximas dentro de uma corrente de jato se movem em velocidades distintas. Quanto maior a diferença de velocidade, maior a instabilidade atmosférica e a consequente turbulência.
Estudos recentes mostram que as mudanças climáticas estão alterando as correntes de jato e intensificando esse cisalhamento vertical. O aquecimento nas regiões polares, por exemplo, tem distorcido essas correntes, criando áreas instáveis com alto risco de turbulência, especialmente em rotas transatlânticas.
Os voos ficarão mais perigosos?
Não necessariamente. Mas a turbulência de céu claro pode ser “muito violenta”, conforme descrito por Hassan Shahidi, presidente da Flight Safety Foundation.
Incidentes recentes, como o de um voo da Singapore Airlines no ano passado que resultou na morte de um passageiro e deixou mais de 70 feridos, são associados a esse tipo de turbulência severa. Voos da United Airlines também registraram episódios semelhantes com passageiros feridos.
Segundo Williams, a turbulência severa de céu claro aumentou 55% desde os anos 1970. Com base em suas análises, o cisalhamento vertical já cresceu cerca de 15% nos últimos 40 anos. Se o ritmo atual de aquecimento global se mantiver, seus modelos projetam um aumento adicional de 29% até o final do século. Williams alertou que isso significa que “vamos ver muito mais turbulências em voos, e em um futuro não tão distante”.
Apesar desses dados, voar ainda é – e continuará a ser – uma das formas mais seguras de viajar. Mas com a crescente instabilidade nos céus prevista pelos pesquisadores, as autoridades da aviação civil podem precisar atualizar suas estratégias de monitoramento e segurança para se adaptar à nova realidade climática.
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