A identidade do ‘isentão’: uma reflexão científica do radicalismo político
Radicais políticos brasileiros classificam como “isentões” aqueles que não votaram em seus candidatos favoritos. Mas a essência da palavra serve a eles próprios, por outro motivo
Você conhece alguém que “passa pano” para políticos desonestos? Curioso para entender o que acontece no cérebro das pessoas quando elas consomem informações que colocam seu político de estimação em maus lençóis, o cientista Drew Westen, da Emory University, colocou indivíduos de esquerda e direita em uma máquina de ressonância magnética.
Os participantes do estudo deveriam ler frases que mostravam que o seu candidato favorito havia prometido algo e feito o contrário. Em outra condição, os participantes liam uma promessa furada do candidato oponente. Em seguida, todos deveriam indicar usando uma escala de 1 a 4, se tal contradição realmente aconteceu. Os resultados foram nada menos do que assustadores! Como você pode imaginar, os participantes não percebiam contradição alguma nas declarações de seu candidato preferido, mas conseguiam enxergá-la com clareza quando ela havia sido cometida pelo candidato do lado oposto.
O candidato do meu partido foi contraditório?
(1 – discordo totalmente, 4 – concordo totalmente)
Direita: 2,16
Esquerda: 2,60
O candidato do partido oponente foi contraditório?
Direita: 3,55
Esquerda: 3,79
O cientista também pediu para os participantes julgarem frases contraditórias de pessoas neutras, como o ator Tom Hanks. Como se esperava, esquerdistas e direitistas conseguiam detectar facilmente a contradição, demonstrando que sabiam separar precisamente o que era certo do que era errado quando o alvo não era um político.
Na fase seguinte do estudo, os radicais liam uma justificativa de seu candidato favorito, ou do candidato do partido oposto, sobre a contradição, indicando posteriormente se a justificativa era forte ou fraca. Confirmando a hipótese do estudo, esquerdistas e direitistas avaliavam a justificativa de seu candidato como forte e a do oponente como fraca. Confirmando a hipótese do estudo, esquerdistas e direitistas avaliavam a justificativa de seu candidato como forte e a do oponente como fraca.
Após a justificativa, o candidato do meu partido mostrou que não foi contraditório?
(1 – discordo totalmente, 4 – concordo totalmente)
Direita: 3,50
Esquerda: 3,11
Após a justificativa, o candidato do partido oponente mostrou que não foi
contraditório?
Direita: 1,82
Esquerda: 1,71
Pelo que parece, quando as pessoas estão comprometidas com um político, elas passam o pano para qualquer justificativa esfarrapada de seu candidato, enquanto demonizam as do candidato ao qual se opõe. Esse estudo ainda reservava belas surpresas: ao lerem contradições de seu político de preferência, o córtex pré-frontal dorso lateral dos participantes – região do cérebro envolvida no raciocínio – não apresentou atividade.
Isso demonstra que o cérebro tem um mecanismo que faz de tudo para proteger nossas crenças – mesmo que elas estejam equivocadas. As imagens da ressonância magnética apontaram ativações em áreas relacionadas com o estresse no começo da tarefa, mas com o passar do tempo, regiões responsáveis por lembranças passadas, perdão e simpatia começavam a trabalhar, até que finalmente, áreas ligadas com o processamento de prazer e recompensa apresentavam grande atividade. Essas últimas áreas são movidas pelo neurotransmissor dopamina, que traz sentimentos de “embriaguez”.
Isso significa que você fica “doidão” depois de inventar uma justificativa para o comportamento antiético do seu político favorito.
De acordo com Westen, os caminhos neurais que utilizamos para processar informações políticas são completamente diferentes dos que usamos para realizar julgamentos mais “frios.” No entanto, movidos pelas ilusões de que têm uma visão cristalina dos fatos e de que tomam decisões imparciais, radicais políticos brasileiros classificam como “isentões” aqueles que não votaram em seus candidatos favoritos. Mas se pensarmos bem, isentão é aquele que se isenta da responsabilidade de enxergar que seu político de estimação é comprovadamente corrupto, inventando justificativas bizarras para transformar atos desonestos em “perseguição da mídia.” O isentão é aquele que passa pano para roubo de Rolex ou de Triplex, dizendo que “todo político recebe presentes.” O isentão é aquele que afirma com toda a confiança que “o sítio não era dele” ou que “as rachadinhas são uma narrativa da mídia.” Já o indivíduo com posicionamento firme é aquele que assume a responsabilidade de não apoiar trapaceiros, confiando seu voto a um candidato sem histórico de ilegalidades – mesmo que ele não tenha a mínima chance de vencer.
A maioria esmagadora dos brasileiros carrega consigo valores nobres como honestidade e transparência, portanto, não tenha medo de assumir um equívoco, não se envergonhe por já ter apoiado um candidato desonesto e muito menos, por ter brigado com seus familiares por causa dele. É mais vantajoso para a sua saúde mental pedir desculpas, reiniciar a sua vida e conquistar uma visão mais precisa do mundo, do que estar diariamente estressado buscando justificativas para passar pano para mais um escândalo.
Luiz Gaziri é professor de Ciências Comportamentais e autor de “A Arte de Enganar a
Si Mesmo
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Comentários (2)
Andre Luis Dos Santos
10.05.2025 13:25Muito interessante. Nine e Bozo são dois MERDAS, DESQUALIFICADOS e CRIMINOSOS, que deveriam apodrecer na cadeia.
Rosa
09.05.2025 19:49Incrível, mas também crível pois por algum motivo tem que ser....