“Demos as costas para os perdedores da globalização”
Joe Nocera, jornalista americano, relata como ele e outros jornalistas foram seduzidos pela globalização e ignoraram os danos econômicos e sociais causados pelo livre comércio
Joe Nocera, jornalista americano, publicou nesta terça, 6, artigo intitulado “Os Padrinhos Intelectuais do Protecionismo”, no portal The Free Press.
Ele revisita a ascensão e a queda do “neoliberalismo” e expõe como economistas, políticos e jornalistas – incluindo ele próprio – se recusaram a enxergar os impactos negativos da globalização.
Nocera relembra que, em 1997, o economista Dani Rodrik, da Universidade Harvard, lançou o livro A Globalização Foi Longe Demais?, alertando que o livre comércio poderia aprofundar as divisões sociais se não fosse acompanhado de políticas públicas de mitigação.
Rodrik pediu o apoio de um colega renomado, que recusou endossar a obra, temendo que o autor “estivesse dando munição aos bárbaros”. Os “bárbaros”, segundo Nocera, eram políticos como Pat Buchanan, que criticavam o impacto do livre comércio nos empregos americanos.
O jornalista admite que, na época, ele e outros profissionais de mídia tratavam o neoliberalismo como uma espécie de “escritura sagrada”, promovendo o livre comércio e ignorando o fechamento de fábricas e a perda de empregos nos Estados Unidos.
“Acreditávamos, sem a menor dúvida, que a globalização criava tanta prosperidade ao redor do mundo que a perda de empregos em lugares como Flint, Michigan, e High Point, Carolina do Norte, era um preço pequeno a se pagar”, reconhece.
Nocera acredita que o cenário mudou. Com a ascensão de Donald Trump e sua política de tarifas e protecionismo, as críticas ao livre comércio deixaram de ser uma opinião marginal. “Hoje, são pessoas como Rodrik que venceram o debate, pelo menos por enquanto.”
Além de Rodrik, o artigo destaca outros críticos do neoliberalismo, como Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, que desde os anos 2000 alerta para os desequilíbrios comerciais entre China e Estados Unidos, e Clyde Prestowitz, ex-membro do governo Reagan, que viu de perto a resistência japonesa às exportações americanas na década de 1980.
Nocera também menciona o impacto do chamado “Choque da China”, um estudo de 2016 que revelou que os trabalhadores afetados pela concorrência chinesa demoraram anos para se recuperar.
O estudo forçou economistas como Paul Krugman, que antes ridicularizava os críticos do livre comércio, a rever suas posições. “Economistas, inclusive eu, tendiam a minimizar os efeitos disruptivos da mudança rápida”, escreveu Krugman em 2021.
O artigo de Nocera conclui mostrando que a pandemia de Covid foi o golpe final no “consenso neoliberal”, ao expor a dependência dos Estados Unidos em relação às importações chinesas de itens essenciais, como máscaras e equipamentos médicos.
“Se havia alguma dúvida de que os Estados Unidos colocaram sua segurança em risco ao permitir que os chineses dominassem a fabricação, a Covid acabou com ela”, concluiu.
Quem é Joe Nocera
Joe Nocera é um jornalista americano com uma carreira de destaque na mídia de economia.
Foi colunista do The New York Times e da Bloomberg, e é autor de livros como All the Devils Are Here, sobre a crise financeira de 2008.
É conhecido por sua abordagem crítica e analítica do setor econômico e financeiro.
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