Quer parar de procrastinar? Se não for por amor, que seja pela dor
Por que fazer hoje o que você pode deixar pra depois de amanhã?
Eu sei que você gosta (também gosto) de acreditar que sua psique é complexa, nuançada, excêntrica, controversa e vagamente genial, mas um filósofo britânico do século XVIII, chamado Jeremy Bentham, acredita no oposto. O pior é que um outro cidadão, esse do século XX, nascido nos EUA, B. F. Skinner, confirma o colega. E alguns cientistas comportamentais que nasceram anteontem têm a desfaçatez de colocar o último prego no caixão da nossa imprevisibilidade.
A ideia básica está no primeiro capítulo do livro Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação, publicado por Bentham em 1789, que diz o seguinte:
“A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é certo do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e efeitos.”
Um dos criadores da filosofia utilitarista resume toda a complexidade das nossas ações a dois comandos centrais: evitar dor e obter prazer. Se aceitarmos essas premissas, ainda que como hipótese de trabalho, chegaremos à conclusão de que nossas decisões podem ser “modeladas” por uma lógica simples que corresponde à recompensa (obtenção de prazer) e à punição (evitação da dor).
Nossas motivações são básicas
É uma visão um tanto crua e até certo ponto incômoda do que nós somos? Concordo que é. E concordaria com um crítico que colocasse em discussão essa tese. A filosofia está aí pra isso mesmo. Mas o fato é que, em muitos momentos, em muitas das nossas reações sociais, agimos assim: procuramos prazer, evitamos dor; esperamos recompensa, rejeitamos punição.
E o que isso tem a ver com a procrastinação, anunciada lá no título?
Partindo dessa suposição básica, surge um conceito popularizado pelo escritor George Mack, que ele chama de “Lei de Skinner”. Inspirada nos trabalhos do psicólogo comportamental B. F. Skinner, essa “lei” propõe uma abordagem prática para lidar com determinados comportamentos que não são recompensados ou punidos socialmente, porque se referem às nossas próprias ambições ou falhas. Por exemplo, a falta de iniciativa. A procrastinação. O deixar para amanhã (ou depois de amanhã) o que você pode ou precisa fazer hoje.
Evite profissionais suspeitos e faça um bem a si mesmo
Ninguém cogitaria contratar um cobrador de dívidas para ameaçar a si mesmo em caso de descumprimento de promessas feitas. Eu quero emagrecer, quero estudar, quero guardar dinheiro, mas não acho boa ideia ser ameaçado por um profissional pago por mim. Então, temos de criar dispositivos internos para lidar com o problema.
Em linhas gerais, é simples: se você está adiando algo, tem duas opções estratégicas. Ou você aumenta o custo (“dor”) de não fazer a tarefa até que ele se torne maior do que o custo de realizá-la, ou você eleva o benefício (“prazer”) de completar a tarefa acima da satisfação de evitá-la. É como usar nossa capacidade racional para reprogramar nossa própria resposta aos incentivos de dor e prazer.
A Dra. Katy Milkman, cientista comportamental da Wharton School, explica que essas estratégias são conhecidas no meio acadêmico como “dispositivos de compromisso”. Um dispositivo de compromisso é uma ferramenta autoinfligida que uma pessoa usa para se automotivar. Ela funciona ao criar um sistema de recompensa ou punição externa, ou seja, motivação extrínseca, em contraste com a motivação intrínseca, que vem de um desejo interno.
Mas o que é que funciona melhor: obter prazer ou evitar dor? A regra é clara, segundo Arnaldo Cezar Coelho e a Dra. Milkman: a dor é, de longe, o motivador mais forte. Essa percepção é corroborada pela “Teoria da Perspectiva”, desenvolvida pelos ganhadores do Prêmio Nobel Daniel Kahneman e Amos Tversky.
A teoria demonstra que o desprazer causado por uma perda (como perder 20 reais) geralmente supera a felicidade gerada por um ganho equivalente (como encontrar 20 reais). A dor tem um peso psicológico maior em nossas decisões. Com base nessa constatação, poderíamos implementar alguns “dispositivos de compromisso” práticos em nossas vidas.
Por exemplo, fazer uma aposta com alguém de confiança. Apostar dinheiro, mesmo, mas sem chance de voltar atrás por peninha: “Aposto x reais que emagreço até o fim do ano”.
Outra possibilidade é espalhar a notícia: falar para a maior quantidade possível de pessoas o que você pretende fazer, em quanto tempo. Em tese, você ficaria sem-graça de ter de se explicar depois. Mas essa vale pra quem tem vergonha na cara.
Por fim, evitar o ócio. Cumprir pequenas tarefas é melhor do que prometer grandes coisas e sequer começar.
O autodomínio é complicado mesmo de se conquistar. Mas é o mínimo que a gente pode tentar. Faz tempo, Aristóteles já dizia que a virtude não é um dom, mas um hábito.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Dovanil Ferraz Camargo Júnior
28.04.2025 20:03Gustavo eu estou admirado da excelência de seus textos. Parabéns. Sou seu admirador.