Por que rupturas morais incomodam tanto?
Mudanças sociais importantes geralmente encontram obstáculos igualmente importantes
Os libertários que me perdoem (ou não perdoem), mas é intrigante que o uso de um dispositivo tão simples, tornado obrigatório no Brasil em 1997, tenha causado tamanha controvérsia. Milhões de mortes foram evitadas desde que deixamos de viajar livres, leves e soltos no carro. Crianças inclusive. Crianças, aliás, que se amontoavam no banco de trás ou no bagageiro de automóveis que trepidavam como um touro mecânico. Era divertido, mas não recomendável.
A primeira reação de muitos motoristas à lei do cinto de segurança foi resmungar: “Frescura!”. O sentimento era de que um certo costume social estava sendo violado pelas autoridades – que, como sabemos, só querem achar um jeito de aplicar as multas e esfolar nosso couro. Preferimos que o asfalto nos esfole, se for o caso, mas não queremos pagar por isso. Começam obrigando cinto de segurança, terminam exigindo cinto de castidade.
Por que é tão difícil compreender novos valores?
Peço aos leitores que se esqueçam, por um minutinho ou dois, das autoridades, das multas, dos libertários e do Estado. Considerem a outra ponta: a dificuldade de aceitar a mudança de um costume social arraigado. Se antes dirigíamos sem usar o cinto, por que agora somos obrigados a admitir que o que sempre fizemos estava errado? Essa rejeição acontece quando novas leis são sancionadas, mas também quando certas regras ou ideias morais começam a circular por aí. Veganismo? Faça-me o favor!
A resistência a alternativas morais não é novidade, e isso é tema de um ensaio dos filósofos Daniel Kelly e Evan Westra: “Moral Progress Is Annoying”. Reconheço que os autores não colaboram, e citam exemplos que incomodam até a mim. Algumas questões ali são discutíveis em quaisquer termos, mas o argumento central do texto continua válido: nós não gostamos de repensar os termos com que julgamos o mundo. Mudar de ideia dói. Aceitar diferenças machuca.
O progresso moral é irritante, e o politicamente correto interfere mais do que devia na comunicação dos valores, mas ninguém precisaria se alistar no exército woke para reconhecer que… Deixa eu ver aqui um exemplo consensual que não recorra a pronomes, etimologias ou mudanças na identidade civil… Vamos lá: escravizar pessoas não é uma boa ideia, concordam? Estamos de acordo ou tem gente que ainda se questiona? Pressupondo que estamos de acordo, continuemos.
Durante centenas de anos, a escravidão era um fato social e econômico tratado como legítimo. Era assim que as coisas funcionavam. A vida como ela era. Estava na Bíblia, nos filósofos gregos, nos legisladores romanos, no Brasil colônia e no mundo afora. Isso vale pra machismo, homofobia, xenofobia, antissemitismo, e todos aqueles conceitos ou preconceitos que muita gente um dia já teve – ou ainda tem – sobre qualquer tipo de avaliação moral de indivíduos e grupos.
Nossa primeira reação, quando certas respostas morais esperadas (porque habituais) são colocadas em discussão, é resmungar: Frescura! Passamos tempo demais (às vezes, gerações) internalizando regras que pareciam indiscutíveis para, de repente, vê-las sendo chamadas de preconceitos. Coitadinhas das nossas crenças! Antes, certas expressões não eram racistas; por que agora são? Frescura! Antes, ninguém estava nem aí pra esse negócio de meio ambiente; agora, todo mundo quer salvar o mundo. Frescura!… E as vacinas?
Somos mais coletivistas do que pensamos
A explicação não está tanto no mérito do argumento em si, mas em como nosso cérebro lida com os padrões comportamentais esperados na sociedade. Nossa rejeição a essas ideias moderninhas vêm de mecanismos psicológicos que facilitam a movimentação entre os costumes do nosso grupo – é a “norm psychology”, psicologia da norma.
Processos emocionais e cognitivos muitíssimo úteis socialmente para nos guiar entre as inúmeras regras implícitas e explícitas meio que sem pensar. É um sistema que garante que estejamos situados no contexto. A gente sabe com o que está lidando, conhece os procedimentos. Só que há um porém.
Conservadores e liberais que leram Edmund Burke e Friedrich Hayek tendem a ser críticos ferrenhos do que chamam de coletivismo, e eu tendo a concordar com eles. Como gritou Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa em Lisbon Revisited, “Vão para o diabo sem mim/Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!/ Para que havemos de ir juntos?”.
A ironia é que nossa dificuldade em aceitar que certas disposições morais às vezes mudam – e devem mudar – não deixa também de ser uma espécie de submissão do indivíduo ao coletivo. Quando protegemos um costume contra outro, nem sempre estamos protegendo o valor intrínseco desse costume – mas apenas a sua adoção coletiva. Estamos sendo soldadinhos morais do coletivo.
Por isso, quando uma nova disposição irritar demais o seu coraçãozinho, quando a adoção ou o abandono de um costume te deixar com um Rothbard atrás da orelha, seria interessante pensar se isso te irrita porque você julga que a ideia moral usada é melhor, ou se isso incomoda apenas porque a nova ideia moral é estranha àquela que circula no ecossistema social há mais tempo. Ninguém gosta de se indispor com a galera. Se todo mundo acredita, pensa, fala, faz ou escraviza há tanto tempo – é porque deve estar certo. Certo?…
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Comentários (2)
Marian
28.04.2025 20:34Talvez porque a sociedade evolui continua gradualmente. No seu tempo. O que irrita, é uma canetada querer mudar comportamentos para servir a um grupo, que almeja apenas o p0der. Eles praticam o que preg@m? Isso irrita...
Rosa
28.04.2025 19:55Gustavo Nogy, você é bom!!! Estou gostando do que você posta, boa cabeça, benza Deus heim?