Jornalista e biólogo, Eli Vieira publicou um livro para combater o que aponta como uma “teoria da conspiração socialmente aceita”. Com formação em biologia molecular e genética pela UFRGS e pela Universidade de Cambridge, o autor de Mais iguais que os outros: Demolindo o Identitarismo a partir de suas falácias fala sobre o movimento “woke”, que se espalhou pelo mundo a partir dos Estados Unidos, em entrevista ao Podcast oa!.
“Sobre o ‘woke’, eu faço um paralelismo com outro termo bem brasileiro, que é ‘lacração’, o verbo lacrar. Era usado nesse setor do progressismo identitário. Era legal. ‘Ah, Lacrou, parabéns’. Nos Estados Unidos, ser ‘woke’ era uma coisa legal também. A primeira vez que apareceu no sentido mais moderno foi lá pelos anos [19]90, num jornal universitário do movimento negro.
Essas duas coisas, nas duas culturas, passaram por essa evolução convergente, o paralelismo evolutivo, que a gente chama na biologia, de chegar a virar uma coisa pejorativa. Por quê? Porque as táticas são muitas vezes chatas. Então, virou pejorativa até dentro da própria esquerda. Já se fala que está lacrando de uma de uma forma pejorativa agora”, diz Vieira na conversa.
Occupy Wall Street, a origem
O geneticista, também conhecido por participar do Twitter Files Brasil, compartilhou sua experiência na análise dos movimentos identitários, que mescla ciência, filosofia e comunicação. Segundo ele, o identitarismo defende tratamentos especiais para minorias, mas adota uma postura hostil contra grupos que não estão contemplados por essa defesa.
Vieira cita o movimento Occupy Wall Street, de 2011, como um ponto de partida para o movimento identitário contemporâneo, que já mostrava uma tendência de priorizar vozes com base em identidades específicas.
“Eles faziam o que chamavam de lista progressiva, que era assim: mulheres falam antes de homens, mulheres negras antes de mulheres brancas, mulheres negras lésbicas antes de mulheres negras heterossexuais. Então, já era uma inversão de hierarquia, que, aliás, é uma hierarquia mais percebida do que real, em que a pessoa que era declarada mais oprimida possível por características identitárias tinha a prioridade de tratamento moral, como a prioridade de falar antes de todo mundo”, explica o geneticista na entrevista.
Cotas, homofobia, lugar de fala
Vieira também fala na entrevista sobre a experiência do Brasil com cotas raciais, algo pensado para ser temporário, mas que se torna eterno, e as limitações impostas pelo conceito de lugar de fala, que tem implicações para a liberdade de expressão.
Nesse contexto, também não faltam críticas para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes:
“Moraes tem se apropriado do vocabulário identitário. Por exemplo, quando a ‘Folha’ fez aquela série de reportagens sobre o gabinete da criatividade, como eu chamo, ele se justificou, no plenário do STF, dizendo que o que ele queria combater era o discurso de ódio eleitoral. Ele não definiu isso, eu gostaria que ele definisse. E que mais ele tem em comum com o identitarismo, além do vocabulário?
Com essa ideia de que o cuidado, ele atropela a liberdade. Ele está abusando de um conceito do filósofo liberal John Stuart Mill, que é o princípio do dano. Eu levei para o Instituto John Stuart Mill, da Inglaterra, o que o Moraes falou, e eles ficaram perplexos com o Moraes usar o princípio do dano para justificar o banimento de uma rede social inteira por 40 dias”. comentou.
Assista: