"A infância precisa ser resgatada da tirania dos smartphones"

22.09.2026

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“A infância precisa ser resgatada da tirania dos smartphones”
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Alexandre Borges
7 minutos de leitura 28.03.2025 05:18 comentários
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“A infância precisa ser resgatada da tirania dos smartphones”

O psicólogo americano Jonathan Haidt e o pesquisador Zach Rausch mostram como um livro virou movimento global para recuperar a infância das garras da tecnologia

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Alexandre Borges
7 minutos de leitura 28.03.2025 05:18 comentários 0
“A infância precisa ser resgatada da tirania dos smartphones”
Foto: Reprodução

O psicólogo Jonathan Haidt e o pesquisador Zach Rausch publicaram, no site The Free Press, artigo intitulado “Recuperando a infância dos celulares — finalmente“. O texto marca um ano do lançamento do livro “A geração ansiosa” e descreve como a obra desencadeou um movimento mundial para resgatar a infância do domínio das telas.

“A infância baseada em telas não é uma necessidade inevitável, é uma escolha cultural”, escreveram os autores. Segundo eles, a pandemia agravou o problema: privados da escola e da convivência social, os jovens foram empurrados ainda mais para o isolamento digital — e muitos não voltaram.

Pais e professores já estavam esgotados. Segundo Jonathan Haidt e Zach Rausch, o livro transformou frustração em mobilização. “A luta deixou de ser privada e silenciosa para se tornar pública e organizada.”

O livro apresentou o problema como uma crise coletiva que só pode ser superada com ação conjunta. A proposta se baseia em quatro normas culturais simples, já em uso em vários países.

A primeira norma: adiar ao máximo a entrega de um smartphone para crianças. “Se você precisa falar com seu filho, dê um relógio com telefone, um celular simples ou qualquer aparelho sem acesso à internet.” O livro sugere o ensino médio, ou 14 anos, como idade mínima.

“Muitos pais queriam adiar, mas sucumbiam ao apelo emocional: ‘Sou o único que não tem, estou sendo excluído’”, escreveram. Mas essa narrativa começa a mudar quando há um acordo coletivo entre pais e filhos.

Grupos liderados por mães passaram a organizar campanhas para adiar o uso de celulares. A iniciativa Infância sem smartphone, criada no Reino Unido, começou com um post em grupo de WhatsApp. Uma semana depois, já reunia 10 mil pais. Em março de 2025, o movimento conta com 300 mil integrantes em 29 países.

“A revolução cultural que estamos vendo é mais rápida do que a que mudou os hábitos em relação ao cigarro ou à embriaguez ao volante”, escreveram Jonathan Haidt e Zach Rausch. “E quem está à frente são as mães.”

A segunda norma defende restringir o acesso às redes sociais para menores de 16 anos. “As plataformas aceitam qualquer um que diga ter 13 anos. Coletam dados de crianças, capturam sua atenção por até cinco horas por dia e as expõem a sexo, violência e apologia ao suicídio.”

O ideal seria restringir o acesso até os 18 anos, mas os autores propuseram um limite mais realista: 16 anos. A surpresa foi a rapidez com que o tema mobilizou governadores e parlamentares de partidos opostos nos Estados Unidos.

Até mesmo o então cirurgião-geral americano, Vivek Murthy, defendeu avisos obrigatórios sobre os riscos das redes sociais, como os que existem nos maços de cigarro. Quarenta e dois procuradores-gerais estaduais apoiaram a proposta.

A medida mais avançada veio da Austrália, que elevou para 16 anos a idade mínima para criar contas em redes sociais. Mais importante: a nova lei responsabiliza as empresas, e não os pais, por fazer cumprir a regra. A legislação entra em vigor no fim de 2025.

A terceira norma: escolas devem ser livres de smartphones. “Alunos que passam o dia enviando mensagens, vendo vídeos ou jogando não estão aprendendo.” Para os autores, “os celulares são máquinas de distração”.

Em 2024, governadores americanos dos dois partidos começaram a agir. Sarah Huckabee Sanders, do Arkansas, distribuiu o livro A geração ansiosa para todos os parlamentares estaduais e destinou verbas para escolas adotarem o modelo sem celular.

Na Califórnia, o distrito escolar de Los Angeles, o segundo maior dos EUA, anunciou a adoção da política. O governador Gavin Newsom estendeu a regra para todo o estado a partir de julho de 2026. Nova York e outros estados estão fazendo o mesmo.

“É só quando os alunos passam seis ou sete horas do dia escolar sem os celulares que ouvimos um relato unânime de professores e diretores: ‘Voltamos a escutar risos nos corredores’.”

Vários países seguiram o mesmo caminho, incluindo Brasil, Dinamarca, Irlanda, Grécia, Holanda e Hungria.

A quarta norma é a mais difícil: restaurar a liberdade e a independência da infância. “Crianças precisam de grandes quantidades de atividades livres, independência e responsabilidade para desenvolver o cérebro e a vida social.”

Segundo os autores, muitos pais da geração atual também pertencem à “geração ansiosa”. Eles têm medo de deixar os filhos sozinhos fora de casa. “Como posso deixá-los brincar na rua se ninguém mais faz isso, se eles preferem telas, se não conheço os vizinhos, se alguém pode chamar a polícia?”

Para mudar esse cenário, Jonathan Haidt cofundou com a jornalista Lenore Skenazy o projeto Let Grow (“Deixe crescer”), que desafia pais a permitir que os filhos façam pequenas atividades sozinhos.

Uma mãe americana publicou um vídeo em que aparece ansiosa dentro do carro, enquanto o filho de 7 anos entra sozinho em uma lanchonete para comprar o jantar. Ao voltar, ele exclama: “Quero fazer isso de novo! Foi muito divertido!” E completa: “Minhas pernas ainda estão tremendo.”

Esse tipo de relato vem de várias regiões dos Estados Unidos, segundo os autores. O excesso de proteção dos pais é mais comum nos EUA, Reino Unido e Canadá. Em países do norte da Europa, a liberdade infantil ainda é mais comum — embora as crianças agora andem olhando para os próprios celulares.

“A liberdade e a independência são essenciais para resgatar a infância da era dos celulares.” O objetivo, segundo os autores, “não é tirar as telas, mas restaurar uma infância que valha a pena ser vivida e lembrada”.

Jonathan Haidt e Zach Rausch afirmam que mudanças tecnológicas sempre geram mudanças sociais. E o ritmo atual está sendo particularmente nocivo às crianças, às comunidades e à convivência.

Eles concluem com uma mensagem de otimismo. Citam o cientista político Robert Putnam, que mostrou como, no início do século 20, os americanos superaram a fragmentação e a desconfiança por meio de ação coletiva.

“A ideia não é voltar nostalgicamente ao passado”, escreveu Putnam. “É tirar inspiração de um período difícil que foi superado com mobilização.” Segundo Haidt e Rausch, esse processo já começou: “Os pais estão dobrando o arco da história”.

Quem é Jonathan Haidt

Jonathan Haidt é psicólogo social americano e professor da Universidade de Nova York. Especialista em psicologia moral e polarização política, é autor de A mente moralista e A transformação do espírito americano. Cofundador do laboratório Tech and Society e da rede Heterodox Academy, seu trabalho influencia debates sobre educação, saúde mental e tecnologia.

Quem é Zach Rausch

Zach Rausch é pesquisador e diretor do laboratório Tech and Society na Universidade de Nova York. Atua no estudo dos impactos da tecnologia na infância e coordena o movimento global por uma infância livre de smartphones. É coautor do livro A geração ansiosa.

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Alexandre Borges

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