Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: Drops de anis
Gosto da soma do filme com o lugar: da sala, do programa que é ir ao cinema
Escrevo esta crônica logo depois de ver o Oscar que ganhou o filme nacional Ainda estou aqui.
Juntei, é claro, a minha figa discreta à figa escandalosa do país para que a fita fosse galardoada com um número apreciável de estatuetas carecas e douradas, visto que esse era um dos muitos prêmios que faltam à nossa modesta sala de troféus.
O número apreciável acabou ficando em um só, mas tudo bem: para um país e um cinema que tinham zero Oscars, ter um é aumento que entra na ordem da infinitude.
Parabéns a quem de direito. Tomara venham outros, no futuro.
O embalo da torcida e da premiação me fizeram pensar na minha, hum, relação com o cinema – no quanto eu gosto de cinema.
Não necessariamente dos filmes (mas, claro, também deles): eu topo ver quase qualquer coisa – o importante é estar lá.
Gosto da soma do filme com o lugar: da sala de cinema, do programa que é ir ao cinema.
Do escurinho, dos drops de anis (no meu tempo, Mentex), da mão macia da menina entre as minhas, do beijo e da vizinhança de um final feliz.
O filme, se for bom, é um bônus bem-vindo.
Comecei cedo com isso. Meu pai tinha o hábito de me levar, no domingo de manhã, por volta de 1971 ou 1972, às matinées do cine Metro, na Avenida São João.
Eu tinha quatro, cinco anos de idade. Íamos ver desenhos animados velhos de Tom & Jerry e do Pato Donald.
Eu gostava da sala escura e imensa, da tela enorme, do som às vezes alto demais.
Nos sentávamos nas cadeiras, naquele tempo duras, de madeira envernizada, sem pipoca nem refrigerante (meu pai, na sólida tradição familiar, era um durango) e passávamos a sessão barata e curta, de uns quarenta minutos, muito entretidos, felizes mesmo.
Era o tempo dos grandes cinemas de rua. Na São João havia, da Ipiranga pra lá, além do Metro, o Comodoro, o Cinespacial, o Regina e, mais adiante, o Arouche.
Da Ipiranga pra cá, o Ritz, o Olido, o Art Palácio, o Marrocos, o Paysandú, o Saci e o Cairo, este já perto do Buraco do Ademar.
Na própria Ipiranga havia as duas salas do Ipiranga, o Marabá com seu balcão (esse ainda existe, acho), o República, o Windsor, o Barão (na Barão de Itapetininga), o Coral (escondido na 7 de Abril), o Metrópole (na Dom José Gaspar) e o Cine Copan.
O meu Brás de nascença tinha sua própria Cinelândia, quase toda ela concentrada entre a Rangel Pestana e a Celso Garcia. Na Rangel, antes das porteiras, havia o Piratininga; depois, o Fontana, o Cine Universo, o Cine Brás Politheama (esse escondidinho à esquerda), o Roxy e, mais adiante, o Cine Brás propriamente dito. Perto do Largo da Concórdia havia ainda o Cine-teatro Oberdan (Bill Halley se apresentou nele, em 1958).
Passávamos de ônibus ou a pé e víamos os cartazes enormes dos filmes que estavam passando (ou, como diziam os mais velhos, que estavam levando).
Comprávamos ingressos em bilheterias envidraçadas, entrávamos em saguões enormes – tudo já decadente, meio cheirando a mofo, parecendo meio brega – e depois em salas ainda maiores e igualmente decadentes.
Então as luzes lentamente se apagavam, vinha um friozinho na barriga, e o Canal 100 ou o Primo Carbonari antecediam os trailers, mostrando partidas de futebol velhas de dez ou quinze anos ao som do Trio Esperança (“que bonito é…”).
Depois vinha o filme: som alto e a tela se enchendo de cores, ao contrário da nossa TV, preto e branco.
O prazer imenso de ver as cores: como descrevê-lo a quem nasceu com elas e me lê numa tela de computador? Nem vou tentar. É como se um homem do século 15 tentasse me descrever o prazer do açúcar.
Por fim, sair da sessão na…
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