Entenda o samba-enredo do Império Serrano sobre o compositor Beto Sem Braço
Homenagem traz alusões a músicas de sucesso, cantadas até hoje. Saiba quais
A homenagem do Império Serrano no carnaval de 2025 a um dos compositores mais reverenciados do mundo do samba rendeu um samba-enredo repleto de alusões a músicas de sua autoria que marcaram a trajetória da própria escola de Madureira e de artistas de sucesso, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Bezerra da Silva.
(A lista está no fim deste texto, com os videoclipes correspondentes.)
O homenageado do enredo “O que espanta a miséria é festa” é Laudeni Casemiro (1941-1993), conhecido como Beto Sem Braço desde a infância, quando teve o braço direito amputado em razão de uma queda de cavalo. Aluisio Machado, seu parceiro em vários clássicos imperianos, não à toa se diz “o braço direito do Beto Sem Braço”.
Machado assina com Xande de Pilares e outros compositores (como Henrique Hoffmann, Carlos Senna, Jefferson Oliveira e Leandro Maninho) o tributo ao ex-feirante do Rio de Janeiro que trocou a Vila Isabel pelo Império Serrano em 1981. O verso “Quem faz a xepa não dispensa o que comer” é uma referência ao seu trabalho na feira, enquanto “Paticumbum bota miséria pra correr”, que justifica o enredo, alude a “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, parceria de Beto e Machado que rendeu em 1982 o nono e último título do Império, além de Estandartes de Ouro e do Povo à dupla.
Duas ruas do Rio também aparecem na letra. A primeira é a rua Uranos, que passa por bairros como Olaria, Bonsucesso, Ramos e Higienópolis, mas que ficou famosa a partir da década de 1970 como endereço da sede do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Foi lá que nasceu o grupo Fundo de Quintal, cujos integrantes se reuniam para tocar e cantar à sombra da lendária árvore conhecida como tamarineira, citada como local onde Beto também “versou” – um jargão do samba para quem faz verso de improviso.
A segunda rua é, na verdade, a avenida Ministro Edgar Romero, em Madureira, endereço da sede do próprio Império Serrano. Nascido no Sergipe, Romero (1883-1956) foi um ministro do Tribunal de Contas da Prefeitura do Distrito Federal, na época em que o Rio era a capital da República. Ele morava no número 372 da antiga Estrada Marechal Rangel, que foi rebatizada com seu nome em dezembro de 1958, dois anos após sua morte. A letra de 2025 exalta o “sentimento mais sincero” que veio de lá e o clima de “afeto” da escola verde e branca, com aquele “sorriso meu, um abraço teu” – referência ao samba-enredo imperiano de 1996, “E verás que um filho teu não foge à luta”, assinado, entre outros, por Arlindo Cruz e Aluisio Machado.
Não que Beto Sem Braço fosse, também, afetuoso à primeira vista.
Em 10 de março de 2014, entrevistado no Programa do Jô, Arlindo Cruz contou duas das muitas histórias do amigo (hoje disponíveis em diversos vídeos e podcasts do Youtube com sambistas): “O Beto era um cara assim muito nervoso, agitado, não gostava de muita intimidade, mas, quando pegava amizade com uma pessoa, ele era bacana. Uma vez até uma repórter perguntou a ele, quando ele ganhou um carnaval no Império Serrano, que é minha escola: ‘Beto, por que teu apelido é Beto Sem Braço?’ E ele… (que) não tinha um braço… (respondeu): ‘Porque eu sou estrábico!’ (Risos).”
Já a segunda história foi a do convidado do convidado: “Ele convidou um amigo para jantar na casa dele. O cara chegou: ‘E aí, Beto? Trouxe um amigo!’ Ele olhou assim: ‘Quem mandou você trazer o cara?’ ‘Não, o cara é meu amigo…’ ‘Teu amigo? Então o cara fica e você vai! Convidado não convida ninguém!’ (Risos).”
Para evitar gafes como essas antes, durante ou depois do desfile imperiano deste ano (o último da Série Ouro na noite de sábado, 1º de março, ou seja, já na madrugada de domingo, 2), fica a lição final do samba-enredo da escola: “Pra pisar no Império Serrano / tem que ser malandro / e saber respeitar”.
Leia a letra completa, com alusões a músicas de Beto Sem Braço listadas abaixo:
“Iaiá… Pintou uma lua lá no terreiro
para o velho partideiro versar,
um papo que cabe na escala de fá
Ai aiaiai auê ai aiaiai auê
Quem faz a xepa, não dispensa o que comer
Ai aiaiai auê ai aiaiai auê
Paticumbum bota miséria pra correr
Ah! meu bom juiz…
Quem me dera se houvesse um decreto
pra levar em cana o infeliz
que promete e não traz, água, luz e concreto;
Conhece mas desconhece o dia a dia
de quem rompe a alvorada, pra aturar a burguesia;
Conhece mas desconhece o dia a dia
de quem rompe a madrugada
no afã da boemia
Quem me guia é Santo Antônio de Categeró
Quem me guia é Santo Antônio de Categeró
Vem Mãe Baiana benzer, pra desatar todo nó
Ver teu filho vencer com um braço só
Num mundo musical e suburbano
passei pela rua Uranos, versei na tamarineira
Foi quando um sentimento mais sincero
vindo da Edgard Romero
me levou pra Madureira
Aquele sorriso meu, um abraço teu
O verde e branco afeto…
Prazer, poesia mora aqui!
batizada Laudeni, codinome Beto
Avante, imperiano!
Mostrando a patente do teu pavilhão
Do samba sou expoente
Pouca coisa não vai me jogar no chão
Êêê diz aê! êêá
Pra pisar no Império Serrano
tem que ser malandro
e saber respeitar!”
Músicas de Beto Sem Braço aludidas no samba-enredo:
“Pintou uma lua lá”
(com Mauricio Da Silva Quintao, o “Maurição”)
Gravada por Arlindo Cruz & Sombrinha.
“Bum Bum Paticumbum Prugurundum”
(com Aluisio Machado)
Samba-enredo do Império Serrano de 1982, vencedor do carnaval do Rio. Naquele ano, a União da Ilha ficou em quinto, com “É hoje”, clássico anos depois regravado por Fernanda Abreu e, mais tarde, por Dudu Nobre. Beto Sem Braço ganhou o Estandarte de Ouro, do jornal O Globo, e o Estandarte do Povo, do Jornal do Brasil, de melhor samba-enredo do ano.
“Meu bom juiz”
(com Serginho Meriti)
Gravada por Bezerra da Silva.
“Pisa como eu pisei”
(com Aluisio Machado e Zeca Pagodinho)
Gravada por Zeca Pagodinho.
O trecho “conhece mas desconhece”, citado no samba-enredo do Império, é uma alusão ao samba original, que diz: “Ao me ver já diz que me conhece / sem saber bem quem eu sou / conhece mas desconhece / meu real interior”.
“Santo Antônio de Categeró”
(com Maurição)
Gravada por Maurição.
“Mãe baiana mãe”
(com Aluisio Machado)
Samba-enredo do Império Serrano de 1983, terceiro lugar no carnaval do Rio, vencido pela Beija-flor com homenagem a sete personalidades negras, incluindo Pelé, Grande Otelo e Clementina de Jesus. Beto Sem Braço ganhou o Estandarte de Ouro, do jornal O Globo, e o Estandarte do Povo, do Jornal do Brasil, de melhor samba-enredo do ano.
“Fala, Serrinha! A voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”
(com Maurição e Jangada)
Samba-enredo do Império Serrano de 1992, terceiro lugar no Grupo de Acesso, hoje chamado de Série Ouro. O trecho inicial dizia: “Avante, imperianos / A luz de Deus iluminou a Serrinha / Viemos cantar, sambar / Mostrar, provar a nossa tradição /
Pouca coisa não vai nos jogar no chão”. O refrão dizia: “Sou Império, sou patente /
Só demente é que não vê / Do samba, sou expoente / Abra meu livro, pois tu sabes ler”. A letra de 2025 mistura esses versos: “Avante, imperiano! / Mostrando a patente do teu pavilhão / Do samba, sou expoente / Pouca coisa não vai me jogar no chão”.
“Papagaio”
(com Almir Guineto e Luverci Ernesto)
Gravada por Mussum, integrante dos Trapalhões que também era sambista.
O trecho “Êêê diz aê! êêá”, citado no samba-enredo, alude ao trecho do refrão original da música bem-humorada, que fala de amor e desilusão pela metáfora da relação entre um papagaio e uma arara: “Êêê diz aê! êêá / Papagaio deu uma mancada / iludiu a coitada / e não quis se casar”.
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Comentários (1)
Paulo Roberto Poletto
01.03.2025 11:46Excelente texto!!!!