Silvio Almeida aceitaria defesa de Silvio Almeida?
Exonerado do Ministério dos Direitos Humanos após denúncias de assédio sexual, Almeida tenta escapar da teia identitária que ajudou a costurar
Exonerado do Ministério dos Direitos Humanos há cinco meses, em meio a denúncias de assédio sexual, Silvio Almeida (foto) deu sua primeira longa entrevista para se defender.
O ex-ministro disse ao portal Uol que a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, uma de suas denunciantes, “se perdeu num personagem”.
“Acho que ela caiu numa armadilha, a falta de compreensão de como funciona a política —a armadilha em que eu caí também”, disse Almeida, que também foi acusado por outras mulheres.
“Isso é um descalabro”
O ex-ministro negou que tenha tido atitudes impróprias com a ministra ou com qualquer das outras mulheres que o acusaram. “Eu passaria a mão nas pernas de uma ministra numa reunião na frente do diretor geral da PF? Isso é um descalabro”, defendeu-se.
Almeida deu a entender na entrevista que foi ele a vítima naquela reunião.
“Foi uma reunião tensa para falar sobre casos de racismo nos aeroportos. Surgiu uma divergência entre o que eu propunha e o que a ministra propunha. Visões diferentes de como tratar a questão. Entretanto, ela foi extremamente deselegante”, comentou.
“Comecei a dar opiniões e, em determinado momento, ela pega meu braço e fala mais ou menos assim: ‘Em todo lugar você quer dar aula. Aqui não é lugar de dar aula’. Eu me calei. Tinha outro compromisso e saí da reunião. Minha secretária executiva acompanhou o restante”, contou.
Igualdade racial
“Depois tive uma conversa com meus assessores sobre como era difícil trabalhar com o Ministério da Igualdade Racial e com a Anielle Franco, como ela foi desrespeitosa comigo. Ela fingia ter comigo uma intimidade que nunca teve, falando comigo daquele jeito”, seguiu, dizendo que instruiu seus subordinados a não se “meter nas políticas de promoção da igualdade racial”.
Questionado se havia ciúmes ao tratar do tema no governo, Almeida disse que “vieram falar que a ministra se sentia incomodada com o fato de eu ser tido como referência na área atinente ao ministério dela”.
“Só que eram fofocas. Eu não tinha tempo de lidar com fofoca, o que pode ter sido um erro meu. Não tinha entendido que a política é feita de intriga”, comentou, acrescentando: “Tanto eu quanto Anielle Franco fomos enredados nessa imundice”.
“Você é jovem, é um homem negro”
Perguntado sobre as denúncias de assédio feitas por ex-alunas, o ex-ministro chamou a atenção para o fato de ser negro:
“Quando comecei a dar aula, em 2006, 2007, um amigo disse: ‘Você é jovem, é um homem negro, se cerque de cuidados’. Por isso trabalho com assistentes. Pouquíssimas vezes apliquei uma prova.”
Questionado por que acha que todas essas mulheres mentiriam, Almeida disse o seguinte:
“Não sei. Não tenho como estar na cabeça delas. O que posso dizer é que não fiz isso. Não sei por que as pessoas mentem. E quem mente tem responsabilidade.”
Quem mente?
A versão de Almeida sobre o ocorrido deveria valer tanto quanto a de Anielle. Nesse caso específico, a defesa do ex-ministro se enfraquece diante do fato de que há mais mulheres o denunciando.
Ainda assim, não se pode descartar que ele tenha sido vítima de perseguição política, como sugere. É por isso que se criou um sistema legal, para mediar esses conflitos.
O problema, para ele, é ter ajudado a costurar essa teia identitária que agora o amarra. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu recentemente que não há injúria racial contra brancos, apesar de a legislação brasileira não fazer essa distinção.
Na base desse raciocínio está uma tentativa de corrigir injustiças que a lei não alcançaria, a essência da militância político-racial de Almeida. O mesmo se aplica ao movimento Me Too, que fez justiça com as próprias mãos, e cuja lógica se replicou no caso de Almeida e Anielle.
Perdoaria?
Confrontado, o ex-ministro se protege no único refúgio possível nesse ambiente político: sua identidade.
Ainda que venha a ser inocentado na Justiça e mesmo que consiga vitórias contra as acusadoras, Almeida nunca vai conseguir se livrar da condenação identitária.
E é difícil imaginar que o próprio ex-ministro perdoaria alguém que se colocou na posição em que ele se encontra.
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