Real segue escondido do conversor de moedas do Google
Cotação “errada” no Natal de 2024 rendeu polêmicas que até hoje geram confusão
A Bolsa de Valores do Brasil (B3) estava fechada para negociações em 24 e 25 de dezembro por conta do Natal; entretanto, nas primeiras horas do dia 25, as redes sociais ficaram em alvoroço porque o Google apresentou a cotação do dólar a 6,37 reais.
Em 23 de dezembro, último dia de negociações antes do feriado, a moeda norte-americana havia fechado, conforme boletim do Banco Central, a 6,16 reais.
Portanto, de onde vieram esses mais de 20 centavos de diferença em pleno feriado?
Tempestade perfeita
Eram dias de intensa volatilidade, com intervenções do Banco Central quase diárias no câmbio e Lula sendo operado na cabeça por duas ocasiões. E o resultado foi uma enxurrada de narrativas nas redes sociais, principalmente de desavisados e de políticos ligados ao Planalto, alegando ser uma conspiração para manipular preços e confundir o povo brasileiro.
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O alarde foi tamanho que a Advocacia-Geral da União (AGU) enviou ofício para o Google e para o Banco Central pedindo esclarecimentos. O mais impressionante é que, até hoje, 21 de fevereiro de 2025, o povo segue impedido de consultar a cotação do dólar na principal e mais confiável ferramenta de busca da internet.
São Tomé precisa ver para crer?
Vamos fazer um teste rápido no Google. Lembre-se que a cotação de câmbio de qualquer moeda é sempre ela versus outra. Portanto, na hora de buscar, coloque duas moedas – nesse momento esqueça o Real.
Por exemplo: “lira turca e dólar”, “dólar e euro”, “iene e rúpia”.
Sempre que colocamos duas moedas na barra de pesquisa do Google, o primeiro resultado apresentado é o conversor de moedas oficial da plataforma. E nele você verá uma lista com dezenas de moedas dos mais diversos países, muitas das quais nunca ouvimos falar.
Na lista de moedas, role até a letra R e procure a nossa moeda. É como se o Real Brasileiro simplesmente não existisse para o Google.
Agora retorne para a barra de pesquisa e tente “real e dólar” ou “real e euro”. O Google vai apresentar resultados patrocinados de sites de instituições financeiras. Uma espantosa nuvem de fumaça sobre a nossa moeda.
O jogo de empurra
Na esteira da polêmica natalina, o maior site de buscas do planeta emitiu nota alegando que apenas contrata informações de sites terceiros — no caso, MorningStar, com sede em Chicago, nos EUA, uma empresa provedora independente de dados do mercado financeiro — e que iria investigar o ocorrido.
Já a Morningstar, em 26 de dezembro, alegou que as taxas de compra e venda foram fornecidas “erroneamente por um contribuidor de taxas terceirizado”. Afirmou também que resolveu o problema e que está comprometida com a qualidade e a precisão dos dados.
O Banco Central, por sua vez, segue calado sobre o assunto, apesar de já ter feito post com linguajar inapropriado sobre o “vacilão do pix” nesse meio-tempo.
Finalmente alguém vai explicar?
O que ocorreu foi que, simplesmente, o Google apresentou a cotação do dólar turismo x real (USDBRLT) em vez do dólar comercial x real (USDBRL), uma vez que apenas o dólar turismo estava sendo negociado por plataformas online do Banco do Brasil e casas de câmbio. Um erro que já havia ocorrido antes, recentemente, em 6 de novembro e 16 de dezembro.
O Google, através da sua provedora de informações MorningStar, não “travou” a cotação do dólar comercial no fechamento do dia-útil anterior. E o sistema procurou cotação ativa em pleno feriado de Natal e encontrou os dados do dólar turismo (mesmo código de negociação, com uma letra “T” extra no final), que estava sendo negociado a 6,37 reais- 6,38 reais. A cotação do dólar turismo pode ser acompanhada por diversos sites na internet, assim como pelo Banco do Brasil.
Frustrando o fanatismo político brasileiro
Entre raios e trovões, é importante lembrar que as cotações de moedas no Google são uma referência para a população em geral, consultada antes de programar uma viagem ou compra internacional. Investidores — que representam menos do que 5% da população — consultam as cotações em plataformas de negociação específicas antes de realizar qualquer ordem de compra ou venda, tendo acesso em tempo real às cotações.
Todos seguiram o feriado de Natal sem nenhum alarde ou receio de crises cambiais. Todos do mercado tiveram a tranquilidade para perceber que se tratava do dólar turismo. O cenário obscuro se dá pelo silêncio do Banco Central em explicar a AGU e ao povo brasileiro sobre o ocorrido. A verdadeira questão é saber por qual razão o governo Lula ainda pressiona o Google a manter o dólar “oculto” para consulta popular.
Direto da Mesa de Operações
Mesmo o Real sendo muito importante para os brasileiros, ele representa apenas 1,2% do volume de transações de câmbio no planeta. Não temos uma relevância em escala mundial para alimentar teoria da conspiração cambial.
Outro ponto muito importante é que o governo, em meio a bravatas de que estavam confundindo o povo brasileiro em uma manipulação golpista do câmbio, esqueceu que 95% da população do Brasil tem menos de 100 mil reais em investimentos e que, portanto, não fazem a menor ideia se o dólar está 6,16 reais ou 6,37 reais. Esses desvios de preço não impactam o dia a dia da população.
Se perguntar a cotação do dólar hoje para 1.000 pessoas dentro de um transporte público, quantas iriam cravar? Precisamos ajudar a população no planejamento de suas finanças pessoais, enquanto o governo só agrava o jogo da desinformação financeira.
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Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.
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