Samuel Feldberg na Crusoé: A cantonização da Síria
País corre o risco de ficar dividido entre uma população curda no nordeste, drusos no sul e alauítas na costa
Para surpresa de todos aqueles que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio, após mais de meio século de brutal controle, caiu a ditadura da família Assad na Síria.
Não foi a primeira vez, desde o início da rebelião no contexto da Primavera Árabe que o regime sírio esteve em risco, mas surpreendeu a rapidez de sua queda.
E, ainda que para os opositores do ditador possa vislumbrar-se um futuro mais promissor, os desafios são enormes.
Comecemos pela composição da Síria.
Assim como outros países da região, a Síria foi criada de forma arbitrária pelos franceses, do espólio do Império Otomano no início do século passado.
La vivem, entre outros, curdos, sunitas, drusos, xiitas, alauítas, cristãos e uns quantos outros grupos menores.
Os sunitas são o maior destes grupos, mas o país tem sido governado desde a década de 1960 pela minoria alauíta e uma estrutura política decorrente da tomada do poder pelo partido Baath.
Um dos maiores desafios dos novos governantes fundamentalistas islâmicos certamente estará ligado ao fato de, apesar de ter uma maioria muçulmana, a Síria ser considerada um país laico, especialmente seu sistema de educação.
Além disso, o novo governo, além de não deter o controle físico sobre todo o país, terá que lidar também com uma cantonização derivada da concentração de uma população curda no nordeste, drusa no sul e alauíta na costa.
Ainda que o líder do assim chamado Hay’at Tahrir al-Sham, Abu Mohammed Jolani, tenha modificado o antigo discurso fundamentalista islâmico por um de tolerância que visa implantar na Síria um modelo de governo compartilhado mas baseado no Islã político, já vimos nas últimas semanas a repressão de vários elementos liberais.
Também ocorreram atos de vingança contra os perpetradores de massacres ocorridos nos últimos 50 anos, como o de Hama em 1982 e mais recentemente a utilização de armas químicas contra a população civil.
Os rebeldes que tomaram o poder aparentemente entendem as consequências do que ocorreu no Iraque com a derrubada de Saddam Hussein em 2003: desde o início anunciaram que as forças de segurança seriam anistiadas e os funcionários do governo mantidos em seus cargos, garantindo a continuidade da administração.
Mas isso também implicaria na manutenção da ampla autonomia curda e a ampliação de demandas dos drusos na fronteira do Golan por uma aproximação com suas famílias no território controlado por Israel.
Na prática, isso geraria um Estado tampão que abocanharia parte do território sírio.
Geopolítica
No âmbito geopolítico mais amplo, a queda do governo Assad tem enormes implicações.
Há décadas, Israel mantinha um status quo em que as Forças Armadas sírias não representavam uma ameaça, com a Força Aérea Israelense atuando livremente contra os iranianos, somente tomando o cuidado de coordenar suas ações com os russos.
Os israelenses imediatamente ocuparam a área tampão estabelecida depois dos acordos de cessar-fogo que encerraram a guerra do Yom Kippur, tomaram as posições sírias no Monte Hermon, (os “olhos de Israel”), desarmaram todos os vilarejos e aldeias adjacentes à fronteira e destruíram, através de bombardeios, toda a capacidade militar síria que poderia cair nas mãos dos rebeldes.
Não sobraram aviões, barcos, canhões, mísseis nem instalações produtivas de armamentos que possam representar uma ameaça no curto prazo.
A queda de Assad, por ora, termina de romper o “anel de fogo” criado por Qassem Suleimani, o estrategista iraniano eliminado pelos Estados Unidos no primeiro governo Trump.
A Turquia, patrona dos rebeldes que agora estão no governo, combina a sua ambição de liderar o mundo muçulmano, competindo com o Irã, o Egito e a Arábia Saudita com sua preocupação existencial com os curdos em sua fronteira.
A submissão da Síria permite que os turcos cruzem livremente a fronteira e ataquem os curdos que ameaçam ampliar as áreas sob seu controle e aumentar a sua influência sobre os curdos turcos (30% da população), os quais poderiam se sentir atraídos pela ideia de uma independência curda.
Uma atuação turca mais ampla poderia fortalecer os rebeldes, reconstruir suas forças com armamentos modernos.
Isso passaria a representar uma ameaça contra Israel que, em princípio, vê movimentos islâmicos em suas fronteiras como algo intolerável após os eventos de 7 de outubro.
Israel também poderá se ver em uma posição muito desconfortável, tendo apoiado os curdos como um aliado contra radicais islâmicos, mas receosa de qualquer provocação contra os turcos com quem já mantém há anos uma relação ambivalente.
Irã
Não há nenhuma dúvida que o Irã desponta como o grande perdedor.
Sua capacidade ofensiva já havia sido neutralizada por Israel, sua capacidade defensiva foi destruída por bombardeios israelenses, sua aposta no Hamas, apesar do enorme sofrimento infligido à população civil, resultou inócua.
O Hezbollah, que serviria como um instrumento de retaliação e dissuasão contra um ataque a suas instalações nucleares, foi dizimado por Israel.
Com a queda de Assad, foi eliminado o corredor terrestre que permitia que o Irã enviasse ao Hezbollah, no Líbano, armas, munições e combatentes o que agora também dificulta a reconstrução do grupo terrorista.
O Irã também perde grande parte da capacidade logística de ameaçar as forças americanas ainda presentes na região.
Com a mudança de regime, o Irã considerou imprudente manter no território sírio elementos da Guarda Revolucionária que por anos garantiam sua capacidade de influência, resultado do árduo trabalho realizado por Qassem Suleimani e seus sucessores, estes também eliminados recentemente por Israel.
E a incapacidade de ativar…
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