“Hitler era comunista”, conforme disse a candidata a chanceler da Alemanha?
Em sua conversa com Elon Musk, Alice Weidel (AfD) afirmou que Hitler era comunista e que o nacional-socialismo não é de direita
A recente declaração de Alice Weidel, candidata a chanceler pela Alternativa para a Alemanha (AfD), gerou intensos debates ao afirmar que Hitler era um comunista e que o nacional-socialismo não poderia ser classificado como uma ideologia de direita.
Em sua conversa online no X com Elon Musk, Weidel argumentou que o reconhecimento de Hitler como conservador é uma das maiores distorções históricas, afirmando que ele representava uma forma de socialismo.
A controvérsia suscitada por suas declarações rapidamente se espalhou pelas redes sociais, recebendo tanto críticas quanto apoio.
Até o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, entrou na polêmica, escrevendo em seu perfil no X: “Não, Hitler não era comunista. Não há necessidade de distorcer a história para construir um argumento”
“Esquerdista” e “Socialista antissemita”
Em entrevistas subsequentes, Weidel defendeu sua posição, alegando ser economista e enxergar os eventos históricos sob a ótica da “história do dogma econômico”. Para ela, é evidente que Hitler deveria ser visto como um “esquerdista” e um “socialista antissemita”.
Weidel sustentou que as táticas empregadas por Hitler eram semelhantes às utilizadas por movimentos de esquerda contemporâneos, citando a manipulação da mídia, a repressão à liberdade de expressão e a exclusão de vozes dissidentes.
Ao abordar o antissemitismo nazista, ela caracterizou-o como uma manifestação da esquerda, chamando atenção para o antissemitismo presente nos protestos atuais em apoio à Palestina.
Os meios de comunicação tradicionais, como “Der Spiegel” e “Die Welt”, rapidamente reagiram à afirmação de Weidel, convocando historiadores para refutar suas alegações.
O historiador Andreas Wirsching, do Instituto de História Contemporânea em Munique, classificou as declarações como “fundamentalmente erradas”, afirmando que eram não apenas enganadoras, mas também desrespeitosas às vítimas do regime nazista.
O especialista Michael Wolffsohn reforçou essa ideia na “Bild”, apontando que Weidel busca limpar a imagem da AfD frente às acusações de nacional-socialismo.
História e política
De fato, a análise mais detalhada do contexto histórico revela que as políticas econômicas de Hitler não se alinham com ideais socialistas.
Ele não desafiou a propriedade privada e evitou nacionalizações, utilizando-as apenas quando necessário para preparar a Alemanha para a guerra. Hitler buscou aliança com industriais poderosos e se financiou por meio deles.
Ademais, os primeiros alvos da violência nazista foram os comunistas. Antes mesmo de assumir o poder, diversos militantes comunistas foram assassinados pela SA (Sturmabteilung), e após 1933 muitos foram enviados a campos de concentração junto com social-democratas.
Hitler via o nacional-socialismo explicitamente como uma luta contra o comunismo e tinha a intenção de erradicar o marxismo.
Ideologicamente, o nacional-socialismo se distancia fortemente do comunismo; ele não incorporava a noção de classe na sua visão social. Ao contrário, promovia a ideia de uma “comunidade popular” que transcendia as divisões de classe através da identidade racial.
Herança socialista?
No diálogo com Musk, Weidel sugeriu que os nacional-socialistas carregavam em seu nome uma herança socialista.
Curiosamente, um dos livros não publicados de Hitler menciona sua autoproclamação como socialista em 1928; no entanto, as intenções por trás dessa declaração permanecem obscuras.
A partir de 1930, Hitler se distanciou do socialismo ao romper com Otto Strasser, um membro proeminente da NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) que defendia uma vertente mais socialista do nacional-socialismo.
O nacional-socialismo operava fora das categorias políticas convencionais, sendo marcado pelo antissemitismo radical e pela aspiração à criação de um império germânico. Essa ideologia combinava elementos destinados a atrair tanto elites quanto trabalhadores, utilizando promessas sociais para fomentar o nacionalismo.
Embora a discussão sobre as semelhanças entre socialismo e nacional-socialismo tenha ressurgido em anos recentes – com alguns historiadores explorando essa complexidade – é essencial notar que Hitler rejeitava qualquer associação com o socialismo.
Leia também: “Apenas a AfD pode salvar a Alemanha”, escreve Elon Musk
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Comentários (1)
Marcelo Augusto Monteiro Ferraz
17.01.2025 12:14Não se deve negar, contudo, que o regime nazista era, além de totalitário como o stalinista, estatizante em muitos aspectos, além de não apreciar claramente as virtudes do livre mercado.