O futuro de Azul e Gol, após memorando para eventual fusão
Seria apenas um adiamento do fim ou da estatização do setor? Ou estamos presenciando a criação de um gigante mais eficiente e com apenas um concorrente?
Há alguns meses vinha planando pelas Mesas de Operações de Bancos e Corretoras a informação de uma possível fusão entre as duas maiores empresas aéreas brasileiras, Gol e Azul — lembrando que a Latam é chilena desde 2012.
Esse tipo de “boato” é comum para medirem o nível de aceitação do mercado — estratégia utilizada em diversos setores e que presenciamos recentemente no campo político brasileiro, com a ventilação de números do plano de redução de gastos do governo e de eventual isenção tributária para renda mensal até 5 mil reais. Quando o “boato” não é bem recebido, ele é desmentido. E segue o jogo.
É verdade que, desde o pandêmico 2020, as companhias aéreas alimentam o mercado com esse eventual namoro, mas dessa vez levaram o casamento ao cartório e assinaram um memorando de entendimentos para uma eventual fusão, que dominaria 60% do setor aéreo brasileiro.
Pós-fusão: um gigante endividado, mas melhor administrado?
Pelo memorando, as duas marcas seguirão em uso, como concorrentes normais, mas com um
certo compartilhamento de aeronaves e destinos. O presidente do Conselho da futura empresa seria da Abra (controladora da Gol) por um período inicial de três anos e o diretor-executivo seria indicado pela Azul, enquanto o Conselho de Administração teria três conselheiros de cada uma delas, além de três conselheiros independentes.
A Gol tem uma frota de cerca de 120 aeronaves e opera 60 rotas domésticas e 16 internacionais. A Azul, por sua vez, possui 180 aeronaves e voa para mais de 160 destinos.
Recentemente, a Azul foi bem-sucedida na árdua renegociação de dívidas, mostrando claramente o empenho em manter-se literalmente em voo. Para a Gol, sem dúvidas, é a máscara de oxigênio de sobrevida.
A queda livre arremeteu?
Em 2024, as ações da Azul (Azul4) caíram mais de 77% e a Gol passou pelo momento mais derradeiro de sua história, acionando o Chapter11 nos EUA (basicamente um Plano de
Recuperação Judicial ao decretar falência) e teve suas ações desvalorizadas em mais de 85%. Resultado de um setor com elevado grau de endividamento e pressionado pela elevação dos juros, em um turbulento momento político que elevou consideravelmente o Risco Brasil.
Com isso, fica a questão sobre a fusão: seria apenas um adiamento do fim ou da estatização do setor? Ou de fato estamos presenciando a criação de um gigante mais eficiente e com apenas um concorrente?
Fato é que o setor de Turismo no Brasil ainda é subdesenvolvido, com tímidos investimentos e aparentemente segue desolado pelo Governo. Dadas as características climáticas e naturais do Brasil, o Turismo poderia facilmente ser o 4º ministério mais importante, depois de Fazenda, Minas & Energia e Agricultura. O ministro do Turismo, deputado Celso Sabino, deveria ser um especialista em Propaganda e Marketing. Entretanto, ele é um advogado e contador.
Um golaço para o consumidor brasileiro?
Nesta quinta-feira, 16 de janeiro, as ações das duas empresas abriram em forte alta na B3, mas um sinal de alerta surgiu principalmente nas redes sociais, onde a maioria das pessoas acaba sendo pega de surpresa.
E o questionamento era majoritariamente sobre uma possível formação de oligopólio, uma estrutura de mercado em que poucas empresas dominam a oferta de um determinado bem ou serviço. Vale lembrar que a fusão ainda precisa ser aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
As passagens ficarão mais baratas?
Sobre a possibilidade de passagens ficarem mais baratas com a fusão, é hora de colocar os pés no chão. Uma realidade que precisa ser trazida à tona é que a fusão cria um gigante endividado, em um cenário ainda desafiador de taxas de juros elevadas e inflação persistente pelo mundo.
Estamos passando por um período de instabilidade política para controle de gastos que pressiona juros e câmbio. Para complicar, há conflitos em regiões estratégicas de produção de petróleo.
O sinal de apertar os cintos deve demorar para apagar, assim na terra como no céu.
Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.
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