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Janja na ONU é um tapa na cara das mulheres brasileiras

Presidente Lula resolveu indicar a primeira-dama, dona Janja, para participar oficialmente e com as despesas pagas pelo governo na ONU

Madeleine Lacsko

O presidente Lula resolveu indicar a primeira-dama, dona Janja, para participar oficialmente e com as despesas pagas pelo governo da 68ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Na publicação no Diário Oficial da União não consta que é a primeira-dama, ela participa como socióloga. Geralmente, as mulheres indicadas pelo governo para participar desse encontro anualmente são as que têm uma história de trabalho na área.

As outras indicadas são a ministra da mulher e mulheres representantes da sociedade civil, que estão à frente de instituições que trabalham com essa temática. Em edições anteriores, esse era o padrão das indicações, profissionais da área. Parlamentares com destaque na defesa da mulher também eram convidadas. Lula inovou nos critérios, incluindo a mulher dele, que não tem cargo no governo e nem histórico de atuação profissional em defesa das mulheres. Belo presente de Dia Internacional da Mulher para todas nós.

Talvez Janja seja o grande projeto de dissonância cognitiva do governo. Primeiro resolveu se colocar como primeira-dama feminista, uma equação impossível. Ou é primeira-dama ou é feminista, são coisas incompatíveis.

Agora, ela continua fazendo para o cercadinho lulista o discurso lacrador enquanto cada vez mais mulheres em posição de comando são substituídas por homens. Lula é o primeiro presidente a diminuir o número de mulheres no STF. Também trocou diversas ministras por homens e mulheres presidentes de bancos públicos por homens.

É um precedente perigoso que se mistura com outro, a busca pela Evita Perón brasileira. Por motivos diferentes, políticos poderosos têm indicado suas esposas como suas substitutas, em detrimento de mulheres que fizeram longas carreiras políticas ao lado deles.

O caso de Lula com Janja é o mais evidente. Mas temos também a situação de Bolsonaro, que se tornou inelegível. Existe uma dúvida sobre o que o Brasil quer como substituição, alguém que trabalha na política ou a mulher dele, Michelle. No caso de Moro, há um movimento semelhante. Rosângela Moro mudou seu domicílio eleitoral de São Paulo para o Paraná. O mundo político cogita que seria uma preparação para a candidatura à vaga do marido caso ele seja cassado.

É um precedente perigoso. Direitos iguais para mulheres são uma ideia relativamente recente na história da humanidade, com menos de um século. Nessa altura, já sabemos que basta piscar para ter retrocessos significativos.

Há 50 anos, no Irã, mulheres tinham uma vida muito parecida com a das brasileiras. Foi piscar que veio a Revolução Islâmica dos aiatolás, garantindo que não haveria mudanças. Hoje o país mata mulheres que não usam o véu religioso nas ruas. O mesmo vale para Paquistão e Afeganistão. A Rússia, por exemplo, revogou há 7 anos a lei de violência doméstica. Agora só se aplica caso a mulher precise ir ao hospital e a pena é pagar multa.

O Brasil ainda é um dos países com menos mulheres em posições de mando na política. Na América Latina, é lanterninha em número de mulheres no parlamento. Aliás, temos menos mulheres parlamentares do que Marrocos e até Afeganistão.

Agora, no mundo da política brasileira, vemos um retrocesso importante. Os homens descobriram que podem substituir as mulheres que investem nas próprias carreiras e querem poder político. Basta indicar as mulheres deles, como fazíamos há 50 anos. E então se diz que essa mulher tem qualidades, preparo e tal. Mas ela não tem o mesmo preparo nem a mesma experiência das demais mulheres com quem compete ou que estão no mesmo posto. A defasagem parece ser automaticamente suprida pelo casamento. Janja na ONU é o ícone desse movimento dos nossos velhos políticos, um tapa na cara de todas as mulheres brasileiras.

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