Um Brasil cada vez mais "centronizado"

14.08.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Um Brasil cada vez mais “centronizado”

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 04.11.2023 10:05 comentários
Opinião

Um Brasil cada vez mais “centronizado”

O processo de “centronização” do Brasil continua avançando. Refiro-me à concentração de poder nas mãos dos líderes do Congresso – não apenas poder político, mas principalmente controle sobre a execução do Orçamento federal. De um lado, o grupo avança sobre órgãos com grande capilaridade. De outro...

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 04.11.2023 10:05 comentários 0
Um Brasil cada vez mais “centronizado”
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

O processo de “centronização” do Brasil continua avançando. A palavra é tão horrorosa quanto o fenômeno que descreve. Refiro-me à concentração de poder nas mãos dos líderes do Congresso – não apenas poder político, mas principalmente controle sobre a execução do Orçamento federal. De um lado, o grupo avança sobre órgãos com grande capilaridade. De outro, prossegue na empreitada de tornar obrigatório o pagamento de todos os tipos de emenda parlamentar. Assim, vai enfeixando em suas mãos um domínio inédito sobre verbas e cargos, em detrimento do Executivo e, muito pior, em detrimento da racionalidade nos gastos públicos.  

O projeto sofreu um pequeno revés nesta semana. O governo conseguiu deter o avanço do projeto que tornaria obrigatório o pagamento das emendas de comissões permanentes – as únicas que ainda podem ser contingenciadas pelo governo. Mas a ideia não foi abandonada, deve apenas cumprir mais etapas no processo legislativo. Os parlamentares também pretendem se apossar do calendário de liberação de emendas, outra ferramenta de negociação com o Congresso de que o Executivo ainda dispõe.  

Esse é o lado das verbas. Na frente de ataque à máquina pública, Arthur Lira (foto) e sua patota abocanharam a presidência e doze diretorias da Caixa na semana passada. Eles, que já comandam a Codevasf e o Dnit, têm como próximos alvos o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que o governo Lula havia extinguido, mas foi obrigado a recriar.  

O que todos esses órgãos têm em comum é o poder de irrigar com verbas os redutos eleitorais dos deputados e senadores que participam do projeto de poder do Centrão. A recém-conquistada Caixa, por exemplo, administra o programa Minha Casa, Minha Vida, além de contar com quase R$ 500 milhões por ano, até 2026, para fazer publicidade.  

Os congressistas têm o dinheiro das emendas assegurado e também mandam nas estruturas que podem direcioná-lo a regiões e municípios. É isso que estou chamando de “centronização”.  

Não vou falar das possibilidades de corrupção que se abrem nesse mundo novo. Você sabe que elas são enormes. Quero chamar atenção para as distorções causadas por esse modelo de execução orçamentária, observáveis ainda que nem um único centavo seja desviado para os bolsos de larápios.  

O montante destinado a emendas parlamentares no orçamento de 2023 representou 32% de todo o dinheiro disponível para despesas discricionárias: R$ 38 bilhões, de um total de R$ 118 bilhões. Como mostraram Paulo Hartung, Marcos Mendes e Fábio Giambiagi em um artigo publicado no final de 2022, a alocação dessas verbas pelos parlamentares, segundo interesses quase que exclusivamente paroquiais, acaba criando aquilo que os economistas chamam de tragédia dos comuns: “pessoas agindo racionalmente em favor do seu interesse próprio acabam prejudicando o interesse coletivo”. 

Dito de outra maneira, serviços que dependem da coordenação entre níveis diferentes de governo acabam se desmilinguindo quando um poder excessivo sobre a execução do orçamento é transferido para 594 parlamentares, cada um com sua própria agenda.  

Há muitos exemplos de que isso é verdade. Um estudo do Ipea divulgado em 2019, por exemplo, mostrou que o aumento da alocação de recursos por meio de emendas parlamentares causa desequilíbrios e desigualdades no SUS.  

Recentemente, a Folha de S. Paulo publicou uma série de reportagens sobre como cidades do semiárido com padrinhos políticos fortes em Brasília concentraram o recebimento de recursos de prevenção à seca, a ponto de cisternas sem uso apodrecerem em depósitos, enquanto localidades vizinhas, com os mesmos problemas, mas sem representantes no Congresso, amargavam a ausência de qualquer transferência de verba.  

O mesmo vale para a educação. Por exemplo: em 2022, Alagoas, o estado de Arthur Lira, que conta com 1,54% da população nacional, foi o que mais recebeu dinheiro do FNDE por meio de emendas parlamentares. Na época, o órgão era comandado por um aliado do senador de Ciro Nogueira, do mesmo PP do presidente da Câmara.  

A questão foi bem resumida numa reportagem publicada pelo jornal O Globo no começo do segundo semestre. Segundo o texto, nos sete primeiros meses de 2023, órgãos parasitados pelo Centrão, como o Dnit e a Codevasf, haviam sido amplamente priorizados na liberação de emendas pelo governo Lula. Ambos têm a vocação de realizar obras e investimentos regionais.   

Para defender esse sistema que combina emendas obrigatórias e controle político de organismos voltados a fazer obras regionais, os parlamentares costumam dizer que estão “promovendo o municipalismo”, ou coisa parecida. Balela. A “centronização” não promove a distribuição equitativa de recursos entre os municípios. Ela não garante, e até mesmo impede, que o dinheiro chegue aonde é mais necessário. Com perdão pela linguagem, o controle das verbas públicas se centraliza no Centrão e o gasto se materializa com a pior das lógicas, a do egoísmo político.  

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
2

Crusoé: Operação Cala a Boca

Crusoé: Operação Cala a Boca
3

TSE suspende sistema de filiação após caso Flávio

TSE suspende sistema de filiação após caso Flávio
4

Centrão não está neutro, diz Kassab

Centrão não está neutro, diz Kassab
5

Caso Dino escancara a essência do inquérito das fake news

Caso Dino escancara a essência do inquérito das fake news
6

AGU questiona Moraes sobre cassação da aposentadoria de Silvinei Vasques

AGU questiona Moraes sobre cassação da aposentadoria de Silvinei Vasques
7

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral
8

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão
9

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%
10

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE
1

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada
2

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
3

Centrão não está neutro, diz Kassab

Centrão não está neutro, diz Kassab
4

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes
5

Líder do governo celebra avanço da PEC da 6x1: “O diálogo produz resultados”

Líder do governo celebra avanço da PEC da 6x1: “O diálogo produz resultados”
6

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico
7

Crusoé: Operação Cala a Boca

Crusoé: Operação Cala a Boca
8

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular
9

MPF investiga atuação da PM perto da casa de Haddad

MPF investiga atuação da PM perto da casa de Haddad
10

PF aponta contatos de Weverton com ministro em caso no Maranhão

PF aponta contatos de Weverton com ministro em caso no Maranhão
1

“Quem foi a liderança nacional mais recente? Eu e Bolsonaro”, diz Lula

“Quem foi a liderança nacional mais recente? Eu e Bolsonaro”, diz Lula
2

Michelle estuda pedido ao STF para acompanhar estreia de Flávio

Michelle estuda pedido ao STF para acompanhar estreia de Flávio
3

Deputado da Missão aciona MPF contra bloqueio de lives no Discord

Deputado da Missão aciona MPF contra bloqueio de lives no Discord
4

Acidentes domésticos com crianças: veja os primeiros socorros mais importantes

Acidentes domésticos com crianças: veja os primeiros socorros mais importantes
5

Zema inicia campanha presidencial com missa em Montes Claros

Zema inicia campanha presidencial com missa em Montes Claros
6

Meio-Dia em Brasília: A seletividade processual do Direito Xandônico

Meio-Dia em Brasília: A seletividade processual do Direito Xandônico
7

Parlamentares defendem rigor penal no plano de Flávio Bolsonaro

Parlamentares defendem rigor penal no plano de Flávio Bolsonaro
8

“Entramos com a Lei de Reciprocidade para mostrar que a gente não é pouca coisa”

“Entramos com a Lei de Reciprocidade para mostrar que a gente não é pouca coisa”
9

Bate-folhas: ritual com ervas pode ser usado para limpar e renovar a energia de pessoas e ambientes

Bate-folhas: ritual com ervas pode ser usado para limpar e renovar a energia de pessoas e ambientes
10

Candidato do PL no Rio quer criar gabinete permanente entre forças de segurança

Candidato do PL no Rio quer criar gabinete permanente entre forças de segurança

Tags relacionadas

Arthur Lira Caixa Econômica Federal Centrão Codevasf Congresso Nacional dnit Emendas parlamentares Funasa Minha Casa Minha Vida
< Notícia Anterior

Temporal em SP deixa seis mortos

04.11.2023 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Hamas inclui terroristas em lista para saída de Gaza e atrasa evacuação

04.11.2023 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.