Maristela Basso na Crusoé: Como morrem, lentamente, as relações entre os países
A diplomacia da rabugice e a lenta erosão da confiança entre os Estados
Há uma forma de rabugice que pertence ao envelhecimento das pessoas. Outra, muito mais perigosa, pertence ao envelhecimento da política.
Ela não se manifesta apenas por palavras ásperas ou explosões de mau humor. Surge quando governantes deixam de distinguir o interesse permanente do Estado dos sentimentos passageiros de quem exerce o poder.
Divergências transformam-se em implicâncias. Desacordos convertem-se em ressentimentos. Gestos diplomáticos passam a servir mais para demonstrar irritação do que para preservar o diálogo.
É nesse momento que nasce o que chamarei de diplomacia da rabugice.
Não se trata de uma política externa fundada em estratégia ou visão de longo prazo, mas de uma diplomacia conduzida pelo impulso, pela reação e pela necessidade permanente de responder à última provocação.
Ela transforma a reciprocidade — um dos instrumentos mais sofisticados do Direito Internacional — em simples mecanismo de retaliação.
O episódio recente envolvendo a concessão e o cancelamento recíproco de vistos entre Brasil e Estados Unidos talvez seja menos importante pelo fato em si do que pelo fenômeno que revela.
No Direito Internacional, existe uma diferença significativa entre não conceder um visto e cancelar um visto já concedido.
A negativa de um visto integra o exercício ordinário da soberania estatal. Todo Estado possui o direito de decidir quem admite em seu território.
O cancelamento de um visto regularmente concedido, entretanto, possui outra densidade política.
Quando atinge autoridades públicas ou pessoas de elevada projeção, deixa de…
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