Dennys Xavier na Crusoé: O Irã e o cinismo ideológico
O que significa dizer que “cada país deve decidir seu próprio caminho” quando as forças do Estado respondem com armas, prisões arbitrárias e censura?
Há momentos em que a história nos confronta com perguntas simples, mas terrivelmente exigentes: o que significa solidariedade?
Qual é o papel moral de um discurso que se proclama defensor dos oprimidos?
E, sobretudo, quando a violência é explicitamente dirigida a pessoas em luta por dignidade e autodeterminação, qual deve ser a resposta ética daqueles que se colocam (ou ao menos dizem se colocar) do lado da justiça?
No Irã, desde o final de dezembro, manifesta-se um levante que começou contra o caos econômico e se transformou em protesto geral contra um regime teocrático autoritário.
A repressão estatal já resultou em milhares de mortos e dezenas de milhares de detidos, segundo organismos de direitos humanos e relatos dos próprios manifestantes.
Diante desse quadro de sofrimento e clamor pela liberdade, emerge um fenômeno inquietante: o silêncio ou a reticência (estratégica?) de setores significativos da assim chamada “esquerda” brasileira.
Aliás, numa extensão verificada num mesmo grupo ideológico em plano mundial: o silêncio solene diante de violência institucional que rompe com processo civilizatório.
Não apenas a ausência de comentários públicos contundentes sobre a repressão brutal (que extrapola materiais econômicos e atinge o tecido social em sua essência), mas também a timidez em questões de solidariedade que, em outros contextos, teriam mobilizado discursos vibrantes e imediatos.
Esse silêncio não é simplesmente “omissão”, sejamos honestos.
Ele carrega, em sua razão de ser, uma preferência por narrativas de rivalidade geopolítica em detrimento de uma crítica clara às violações de direitos humanos, independentemente de quem as cometa.
Não raro, discursos politicamente alinhados ao anti-imperialismo ou ao antagonismo Norte-Sul convertem-se em um gesto de blindagem intelectual.
Ao evitar condenar publicamente a repressão no Irã, evita-se, também, a necessidade de enfrentar a brutalidade de um regime que não se ajusta à moldura das conveniências ideológicas.
Há uma ambivalência…
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