São Paulo no escuro: o vento sopra, a cidade cai — e ninguém é responsável
Ano após ano, tudo isso continua sendo tratado como “evento extraordinário”
Não foi um furacão. Não foi um fenômeno inédito. Foi São Paulo sendo São Paulo.
Bastaram ventos mais fortes nesta semana para que bairros inteiros ficassem sem energia elétrica, repetindo um roteiro já conhecido do paulistano: árvores caem, fios são arrancados, postes tombam e a cidade para. O curioso é que, ano após ano, tudo isso continua sendo tratado como “evento extraordinário”.
Não é.
Árvores grandes, gestão pequena
A cidade convive com árvores altas — o que é desejável ambientalmente —, mas não convive com poda preventiva. A prefeitura falha sistematicamente em realizar manejo adequado, técnico e contínuo da arborização urbana. O resultado é previsível: árvores sem manutenção tornam-se instrumentos de destruição quando o vento aparece.
Não se trata de atacar o verde, mas de reconhecer que arborização sem gestão é risco urbano.
Rede aérea frágil e concessionária ausente
O segundo ato do colapso envolve a Enel. A concessionária insiste no discurso confortável de “eventos climáticos extremos”, enquanto demonstra, na prática, não possuir contingente operacional suficiente para emergências absolutamente previsíveis.
Equipes escassas, resposta lenta e comunicação ineficiente transformam uma queda pontual em horas — ou dias — de apagão. Em uma das maiores cidades do mundo, a infraestrutura elétrica ainda funciona como se estivesse em uma vila dos anos 1980.
Condomínios apostam na sorte
Mas o colapso não é apenas estatal ou privado. Os condomínios também contribuem para o desastre ao tratar geradores como luxo, e não como necessidade. Elevadores, bombas d’água, portarias eletrônicas e sistemas de segurança ficam totalmente reféns da rede pública.
Quando a energia cai, o caos se instala — e o planejamento, mais uma vez, não existia.
Diesel autorizado, mas indisponível
Nem mesmo o plano B funciona. Empresas autorizadas para transporte de diesel, fundamentais para alimentar geradores, não conseguem responder à demanda emergencial. Falta logística, falta preparo e sobra improviso. Tudo isso em um evento que acontece todo ano.
Conclusão óbvia (e ignorada)
O apagão em São Paulo não é culpa do vento.
É culpa de uma cidade que não planeja, de uma concessionária que não se prepara e de uma cadeia inteira de responsabilidades que prefere fingir surpresa.
O vento sopra. A cidade cai. E ninguém assume a conta.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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