Funcionários treinam IA que pode substituí-los
Empresas correm para não ficar para trás na adoção da IA e tomam decisões antes de saber a capacidade dos sistemas de inteligência artificial
A demissão de equipes inteiras em áreas administrativas e de tecnologia passou a acompanhar anúncios sobre inteligência artificial. Em várias empresas, cortes recentes já ocorrem com a expectativa de substituição por sistemas automatizados, não apenas por economia imediata, segundo reportagem do Valor Econômico baseada em relatos de executivos e funcionários.
O movimento aparece em diferentes setores. A AP reporta que houve reduções de quadro em companhias como Amazon e Pinterest ao mesmo tempo em que elas redirecionam investimentos para softwares capazes de escrever textos, gerar código e analisar dados.
Para a direção dessas empresas, a promessa não é só cortar custos, mas transferir tarefas padronizadas para programas que operam continuamente e exigem menos supervisão.
O tema ganhou repercussão pública nos Estados Unidos após um texto viral nas redes. Nele, o empreendedor de IA Matt Shumer descrevia um cenário em que modelos já conseguem programar suas próprias versões futuras, que a forte disrupção pode chegar ainda este ano e o mercado não vive uma simples onda tecnológica, mas uma reorganização do trabalho intelectual.
A circulação da mensagem chamou atenção porque muitos profissionais passaram a identificar ali atividades que vinham sendo automatizadas em poucos meses, como revisão de relatórios e atendimento ao cliente.
Ao mesmo tempo, ocorre um processo mais discreto dentro das corporações. Projetos de captura de conhecimento nos quais funcionários são orientados a registrar rotinas, decisões e procedimentos internos para alimentar modelos de IA.
Na prática, parte dos trabalhadores ajuda a treinar softwares que podem assumir etapas de suas funções e sabem disso.
O desconforto cresce porque as vagas diminuem enquanto a tecnologia ainda está em implantação. Há poucos anos a automação estava associada a linhas de produção. Agora alcança escritórios, marketing, jornalismo corporativo e programação inicial.
A nova etapa não elimina o trabalho humano, mas altera sua distribuição. Aumenta a necessidade de revisão e supervisão e reduz tarefas repetitivas.
Nem sempre, porém, as ferramentas já conseguem substituir pessoas. Analistas passaram a chamar de AI-washing, a situação em que empresas anunciam adoção ampla de IA antes de possuir aplicações capazes de sustentar a promessa.
O caso da fintech sueca Klarna se tornou referência. A companhia demitiu cerca de 700 funcionários entre 2022 e 2024 apostando em inteligência artificial, enfrentou piora no atendimento e, em 2025, voltou a contratar após o próprio diretor-executivo admitir excesso na estratégia, conforme reportagem da Fortune.
Um levantamento da consultoria Forrester divulgado pelo Computerworld aponta que 55% dos empregadores se arrependeram de demissões associadas à IA. Ainda assim, executivos temem ficar atrás de concorrentes que avancem mais rápido.
A disputa tecnológica incentiva decisões antes de haver certeza sobre a capacidade real dos sistemas, e a reorganização do trabalho passa a ocorrer ao mesmo tempo em que a tecnologia ainda está sendo testada.
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